21 julho 2005

Um momento de Reflexão

Estou a trabalhar! É verdade, aqui o capitalista, o Homem de direita, preguiçoso e que não tem nada para fazer na vida, está a trabalhar… e não estou a ser pago! Aceitei uma proposta do meu Pai para trabalhar na empresa dele a custo zero. Não tive problemas em fazê-lo, pois não tenho família para sustentar nem grandes despesas e sobrevivo com os trocos que vou recebendo de tempos a tempos de familiares.
Contudo, estando nesta situação começo a pensar nos milhares de trabalhadores que fazem muito mais do que eu e ganham o mesmo: 0. A diferença é que enquanto eu tenho cama, casa, comida e roupa lavada esses não têm nada. Deve ser, de facto angustiante para um Homem chegar a casa e não ter nada para dar aos filhos, nem poder pagar uma jantarada à família. Quando se tem família, a obrigação da cabeça desse agregado é sustentar os restantes elementos. É para isso que ele trabalha! E quando vê que não consegue corresponder aos “requisitos mínimos” deve ficar extremamente angustiado! Ele quer trabalhar, quer trazer o pão para casa, mas não o deixam!
Depois penso naqueles que ganham o suficiente num mês para sustentar 100 famílias destas num ano, e vejo que o Mundo é de facto injusto. Porque será que o ex- director da Caixa Geral de Depósitos tinha prevista uma reforma de 13 000 € mensais? Porque raio é que o director do Banco de Portugal, que tanto fala no défice e na necessidade de apelar ao rigor orçamental, decidiu renovar a frota de automóveis do Banco precisamente nesta altura? Porque raio é que o Miguel, que ganha 13 000 contos (!?!) por mês apenas por correr atrás de uma bola, quer sair para ganhar mais, e por isso dá-se ao luxo de faltar ao seu emprego? Porque será que o nosso Primeiro-ministro tem 3 (ou 4, confesso que não me lembro) secretárias, e pior do que isso, despediu as que já lá estavam, tendo-lhes pago uma choruda indemnização?!! Porque é que a função pública insiste em promover a greve, em deixar de trabalhar, só porque querem mais dinheiro. Quer dizer, para mostrar que merecem ganhar mais, não trabalham? Porque raio é que ainda há alguém que dá ouvidos aos líderes sindicais? Será que precisamos mais de um aeroporto novo (mais um investimento de vulto em Lisboa) e do TGV, do que de hospitais eficazes (alguém acredita que o S. Marcos é dos melhores hospitais do país!?!) em (pelo menos) todas as capitais de distrito? Será que era mesmo necessário substituir as direcções da Companhia das Águas e da Galp, pondo lá indivíduos tão competentes como Nuno Cardoso e Fernando Gomes, tendo estes novos administradores procedido à “limpeza” do restante conselho de administração das respectivas empresas, e sabem que mais: Mais uma gritante verba para pagar indemnizações!
Eu sei porque razão tudo isto acontece… Acontece porque somos egoístas, egocêntricos e não pensamos no tal homem que trabalha nos campos, na construção ou noutra actividade; que é mal remunerado; e que chega a casa sem nada para dar à sua família; vivendo por isso em completa e perfeita angústia. Portugal é um país pobre não por causa do défice orçamental (o da Alemanha também é gigantesco e vive-se bem melhor) mas sim por causa da pobreza social! Enquanto que as pessoas não tiverem razões para rir, razões para se orgulharem daquilo que fazem e de cumprirem com os seus deveres familiares, seremos sempre pobres.
E a verdade meus amigos é exactamente esta. Por isso, sempre que vejo os trabalhadores da função pública a protestar, o Miguel a reclamar, o Fernando Gomes a falar, penso sempre nesse homem (ou mulher) que chega a casa de mão a abanar.
Porém, depois desligo a TV ou o rádio, venho para o trabalho, faço umas facturas ou recibos, vou ver alguns clientes, navego na net à borla, ponho-me a ouvir Pearl Jam, Metallica, Pink Floyd ou Led Zeppelin (os CD’s disponíveis na loja) e também eu me esqueço do homem. Afinal sou igual ao Vítor Constâncio…

Comentários

7 Comments:

At quinta-feira, julho 21, 2005 10:25:00 da manhã, Blogger Hugo Torres said...

A família não tem uma cabeça. É um círculo. À parte isso: .

 
At quinta-feira, julho 21, 2005 5:02:00 da tarde, Blogger Monique Mendes said...

Bela reflexão Phillipe!
É verdade, só damos valor a esses problemas quando eles nos entram pela tv, pelo rádio...
Somos um país de acomodados e aqueles que ganham relativamente bem ainda reclamam por não ganharem o suficiente, enquanto há pessoas que chegam a casa de mãos a abanar sem nada para dar... E pior são aquelas pessoas que nem casa têm...

abraço**

 
At sexta-feira, julho 22, 2005 12:00:00 da manhã, Anonymous Flecha Negra said...

Olá,Phillipe!
Banalidades, é o mínimo que poderei dizer do seu post!
Faz-me lembrar uma cassete já gasta de tanto ser ouvida.
O seu post é de uma pobreza franciscana, e os argumentos apresentados saltam á vista que foram copiados de jornal!
Os neurónios servem para pensar, e não apenas para ocupar espaço!
Posts como esses originam tédio e monotonia.
Vê se te esforças um pouco mais!
Flecha Negra

 
At sábado, julho 23, 2005 1:35:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Phillipe:

O teu post vem na linha daquilo que o nosso caro Sousa Carvalho escreveu aqui há uns tempos no seu SamuraiSkin: um texto sentimental mas, infelizmente, algo limitado.

Os exemplos que enuncias podem ser vistos de duas formas: a vertente moral e a vertente prática.

Se nos ativermos à vertente prática, notamos facilmente que a reforma do Campos e Cunha - como a do Vítor Constâncio -, as secretárias do Primeiro Ministro e as indemnizações dos gestores da GALP ou da Portucel têm um impacto praticamente nulo no défice do estado (não é preciso fazer as contas, pois não?...)

Quanto ao aspecto moral, também concordo que não me parece uma situação muito correcta a possibilidade de acumulação de reformas com salários, mas isso, espero, está em vias de acabar. Mas sejamos sinceros: é ou não é uma situação legal?
É que é muito difícil exigir a pessoas que abdiquem de dinheiro ($$) apenas por constrangimentos morais - afinal de contas, ninguém quer perder dinheiro por dores de consciência.

Quanto à estória do TGV e da OTA, acho que entramos num domínio no qual nem eu nem tu somos suficientemente creditados para emitir opinião fundamentada. Quem, de entre nós, percebe o suficiente de economia para avaliar o impacto que empreendimentos do género têm sobre o cenário económico do país? A questão não é assim tão simples, do género vermos nestes investimentos um simples desperdício de dinheiro que poderia ser utilizado para dar de comer aos pobrezinhos e aos carenciados (por essa lógica, basta cortar nos financiamentos às empresas, às exportações e etc e dar o dinheiro para caridade que o problema automaticamente desparece. ora, as coisas não funcionam dessa forma...)

"somos egoístas, egocêntricos e não pensamos no tal homem que trabalha nos campos, na construção ou noutra actividade; que é mal remunerado; e que chega a casa sem nada para dar à sua família; vivendo por isso em completa e perfeita angústia"
Terias que ter explicitado de forma mais clara o "porquê" de sormos egoístas e egocêntricos. Somo-lo simplesmente por existirem pessoas em pior condição que nós? Ou somo-lo porque podíamos fazer algo para o evitar? Se há realmente algo que possamos fazer para o evitar, diz-me, por favor, porque eu não conheço fórmulas mágicas! Óbvio que podemos dar ajuda a casos particulares, ajudar um amigo em necessidade, fazer voluntariado, claro, mas repara que não seria isso a fazer "descer" o nosso nível de vida, pelo que, segundo a tua lógica, continuaríamos a ser "egoístas e egocêntricos"...

Por últimso, resta-me deixar no ar algumas reticências relativamente à imagem que dás do "pobre trabalhador". Caro Phillipe, o "pobre trabalhador" não partilha contigo - e comigo - uma única característica: o nível de vida. Não é nem mais honrado, nem menos egoísta, nem mais sábio, nem menos sincero, nem mais leal nem menos verdadeiro. O "homem" de quem falas tem por hábito (ou pelo menos muitas vezes, pois não pertendo generalizar completamente) bater na mulher, eleger o Avelino Ferreira Torres para presidente da Câmara, sovar o filhos, e, além disso, é também um espectador assíduo dos jogos do seu clube da terra, empenhando, para comprar os bilhetes, grande parte do seu salário - que depois lhe faltará para dar de comer aos filhos.
A honra e dignidade duma pessoa não relevam do seu estrato social, há pessoas honradas quer nas classes altas quer nas classes baixas, e cada um tenta viver a vida da melhor forma possível. Pergunta a um empresário de origens humildes se ele se sente egoísta por ter atingido um determinado nível de vida... quanto muito, ele responder-te-á que se sente orgulhoso!

 
At domingo, julho 24, 2005 1:09:00 da tarde, Blogger Cristiana said...

É triste viver em Portugal, país pobre por natureza. Mas, tal como dizes, a pobreza não vem apenas das finanças públicas, mas essencial e principalmente da mentalidade retrógada do povo lusitano que insiste em ser aquilo que sabe que não pode ser. A vida está boa para aqueles que vivem no topo e olham para nós de cima. Eu nunca lá chegarei, por muio esforço que possa ter.
"É que o rico cada vez fica mais rico, e o pobre..."
Oh o pobre...
Pobre Portugal.
Muito bom o post.
******

 
At quinta-feira, agosto 04, 2005 11:09:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

Bom, regressei de umas curtas férias e decidi passar pelo blog para ver como andavam as coisas.

Não posso portanto deixar de procurar defender um pouco a "minha dama", ou seja, o meu post.

Ao flecha Negra devo apenas dizer que os meus posts não são copiados de jornais, mas com ele não se dignou a tratar-me com o mínimo de respeito, só lhe poso dizer: o que vem debaixo não afecta;

Ao meu amigo Pedro gostaria de agradecer pelo eloquente comentário, revelador de uma extrema lucidez. É evidente que o post foi escrito mais sobre a vertente moral e não a prática; No que toca ao TGV e á OTA permite-me discordar de ti. Enquanto cidadão nacional eu IMPORTO-ME em saber onde é que o meu governo investe o dinheiro dos contribuintes. Numa altura em que se pedem sacrifícios, eu quero saber até que ponto o TGV é necessário: Hoje num intercidades pode-se fazer Lisboa- Porto em 3 horas. Por meia-hora faz sentido gastar milhões de euros? Perto de Lisboa, em Alverca, há um aerodromo que se ampliado e reestruturado poderia contruibuir para amenizar o fluxo aéreo em Lisboa. Portanto eu apesar de nada perceber de economia, quero saber onde o governo quer gastar o dinheiro, e se tais investimentos são de facto úteis. Já agora também gostava de saber por que motivo o presidente da Caixa Geral foi demitido. Terá sido por negar o financiamento destes "elefantes brancos"?

quanto ao resto do comment é perfeitamente admissível que tenhas essa visão, enquanto eu fico na minha, em que considero que se nó nada fizermos a pobreza e a miséria social vai apenas aumentar e bater a cada vez mais portas. Quem sabe se às nossas?! E depois, que fazemos?

 
At sexta-feira, agosto 05, 2005 2:01:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Eu também concordo que se nada fizermos, a pobreza e a miséria tenderão a aumentar. Ora, não foi contra isso que me insurgi no comment, mas sim com o facto de te compadeceres por não atormentares a tua existência com um pensamento contínuo acerca do tal "homem" de que falasta.
Parece-me, isso sim, que olharmos o nosso alto nível de vida como a causa do mal do pobre não é boa política - até porque nos poderia levar a conclusões, pelo menos em termos filosóficos, bastante problemáticas e ainda mais complicadas.

Relativamente ao TGV e à OTA, também eu quero saber para onde vai o dinheiro. Simplesmente não gosto de criticar sem conhecer as duas versões da situação, e é-me difícil assumir uma posição intransigente e peremptória - seja de que lado for - enquanto não sentir convenientemente informado. Mas tudo a seu tempo.

Acerca da Flecha Negra, não te preocupes. Pelo menos ainda não te acusou de teres as hormonas aos saltos, com fez comigo lol

Uma abraço

 

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