12 julho 2005

O Ensino que temos

Eu vi, como toda a gente viu, as manifestações dos professores.
Em prol de direitos que o Governo agora lhes quer retirar.
Um desses direitos é a actual idade de reforma, que, segundo o Primeiro-Ministro, vai ser aumentada.
Para o líder sindical Paulo Sucena, esta nova medida aplica-se bem a outras classes da função pública mas não aos professores. Isto porque, como ele gosta de sublinhar picantemente, «ser professor é uma profissão de desgaste rápido.»
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Os partidos mais à esquerda - PCP e BE - apoiaram esta luta.
Porquê?
Porque acham que é justo que um professor se possa reformar dez anos antes de um metalúrgico ou de um pedreiro?
Porque acham que é justo que um professor tenha mais tempo de férias e menos carga laboral que um trabalhador de uma linha de montagem?
Não me parece.
Apoiaram porque têm uma perspectiva bastante precária do trabalho.
É que a Esquerda tende a ver o trabalho como algo que deve ser eliminado. Sob esta concepção, o trabalho embrutece, cansa, fustiga - enfim, apenas deve ser tolerado como um mal necessário.
Ora, o trabalho não tem que ser forçosamente uma coisa má.
Perguntem a um jogador de futebol.
Perguntem a um matemático.
Ou a um educador de infância que tem paixão pelo que faz.
A questão não é, portanto, acabar com o trabalho - mas sim valorizá-lo.
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Entendo que pôr as coisas nestes termos é também muito simplista. As profissões não são igualmente estimulantes - compreendo que dar aulas a jovens sem educação, pouco interessados e desatentos deve ser tudo menos agradável.
Mas aquilo que torna a profissão tão extenuante é também aquilo que a pode tornar gratificante.
Um professor tem oportunidades únicas.
Contactar todos os anos com pessoas novas, falar, explicar. Dissertar acerca de um ou mais temas nos quais se especializou - e isto pode tornar o ensino um prazer.
Mas, para que o ensino seja um prazer, é preciso potenciar as suas coisas boas e tentar reduzir as más.
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Parece-me que duas coisas muito importantes devem ser feitas.
A primeira é apostar na formação - intensa e de qualidade - dos professores.
A segunda é restituir à sala de aula o respeito que ela merece.
O professor - especialmente aquele que lida com os mais jovens - deve ser capaz de estimular neles o gosto pelo saber. Pô-los a pensar. A duvidar. A perguntar o porquê e o como. A colocar perguntas difíceis, mesmo que o assunto focado se desvie um pouco da matéria em questão (até porque um «não sei mas vou-me informar» não deveria ser, para o professor, algo tão difícil de dizer).
Julgo que esta medida, só por si, poderia acabar com muitos dos problemas do nosso Ensino.
É que um aluno que tenha, desde cedo, interesse pelas matérias e conhecimento das bases, é um aluno que terá maior facilidade, um dia mais tarde (no Secundário, ou até no Ensino Superior), em estar atento e se imiscuir nos assuntos em debate. E por favor não digam que apenas um rapaz de boas famílias e com uma sala a transbordar de livros é capaz de achar interessante a matemática, a biologia ou química - isso é um argumento falso. Podia, para rebater essa ideia, invocar os nomes de Edison ou Faraday, mas creio que é suficiente mencionar as conferências - de carácter científico - que a Royal Society promove todos os anos em Inglaterra, tendo por alvo crianças de poucos recursos económicos; é que as ditas conferências estão sempre lotadas...
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Penso também que uma das coisas que torna as aulas mais cativantes é a componente prática - algo que é muito bem explorado nos países anglo-saxónicos mas que por cá ainda é feito em moldes completamente errados.
Vou dar dois exemplos bastante concretos - um mau e um bom.
O mau é aquilo que se costuma fazer nas nossas escolas secundárias e diz respeito às aulas práticas de Técnicas laboratoriais de biologia (TLB).
O objectivo duma aula de TLB é que os alunos consigam, mediante alguns conhecimentos teóricos e através de uma observação ao microscópico, visualizar determinado fenómeno, relacioná-lo com os conhecimentos adquiridos nas aulas teóricas, e, através destes, elaborar uma conclusão, que deve ser exposta - tal como um desenho da observação efectuada - num relatório.
Até aqui tudo bem.
O grande problema é que estas aulas são um verdadeiro atentado à inteligência - e à sanidade mental - de cada um. Não se espantem: os procedimentos experimentais, os raciocínio implícitos, as inferências lógicas e as próprias conclusões são previamente fornecidas em manuais criados para o efeito.
Ou seja, estas aulas acabam por se tornar um local onde os alunos saltam por cima das mesas, fazem passes de sapateado sobre as cadeiras, passam duas horas a molharem-se uns aos outros com azul de bromotimol ou água iodada e, por fim, dedicam os últimos trinta minutos a copiar o relatório do manual para a folha de exercício. Em muitos dos casos, o aluno nem sequer chega a tocar no microscópio.
O segundo exemplo - o bom exemplo - é a cadeira de Técnicas de Expressão.
Nesta cadeira - que frequentei este ano -, as aulas foram interessantes, havia diálogo, havia experimentação, havia um processo de aprendizagem em que o aluno sentia que efectivamente estava a adquirir conhecimentos.
Este "processo" culminou com a realização de uma "performance" no final do ano, algo que foi extremamente gratificante para todos. Aqui está uma prova de como as componentes práticas podem ser feitas num ambiente sério e responsável mas, ao mesmo tempo, divertido e compensador.
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Pela minha parte, penso que a reforma do Ensino é essencial.
O gosto pelo saber - ou mera curiosidade, se lhe quisermos chamar assim - é coisa que cada vez menos se vê.
Eu, por exemplo, movimento-me num meio académico, onde seria de esperar que as pessoas tivessem um interesse, ainda que mínimo, por aquilo que aprendem (afinal de contas ,estão no curso que escolheram).
Mas não é isso que vejo. Salvo algumas excepções, constato que a grande maioria dos universitários - mesmo do meu próprio curso - não vê, naquilo que aprende, o mínimo motivo de atracção. As cadeiras são para ser feitas, não para ser compreendidas. Os alunos não tiram delas qualquer rendimento adicional para além da nota que obtêm no final do semestre.
E, quando falo de "gosto pelo saber", não me refiro a ler 6 horas seguidas de Goethe ou Tolstoi, conhecer a vida toda de Mozart ou querer saber todas as classes, ordens e famílias de animais - "gosto pelo saber" pode ser apenas perguntar porque é que as coisas caem para baixo ou porque é que espirramos quando estamos constipados.

Comentários

5 Comments:

At quinta-feira, julho 14, 2005 12:44:00 da tarde, Blogger Cristiana said...

Em primeiro lugar, mereço um "eh las" por ter tido a paciência para ler este post.. De facto, quando não se tem nada que fazer, acaba por se cair na decadência! (é claro que estou apenas a brincar)
Ora, considero um post de muita qualidade, na medida em que é assunto cardeal nos nossos dias. Ser professor... Mas hoje em dia, toda a gente é professor! Até eu, no curso de Comunicação Social, um dia posso ir desaguar a esse lagar, onde serei obrigada a aturar uma cambada de putos irreverentes e mal-educados, que nunca tiveram ninguém que lhes soubesse dar educação. E agora recai em mim essa obrigação que os pais não quiseram ter?
A causa do insucesso escolar recai nos professores, é certo. Mas não há nada que mereça mais essa causa senão a frustração. Então uma pessoa dá a vida por um curso superior, tira mestrados para se especializar e para obter mais uma qualificação que o coloque em posição de superioridade face ao rol de pessoas na mesma situação e, não arranjando emprego, vai acabar a dar aulas, na maior parte das vezes, em áreas que nada tiveram a ver com a sua?
Valha-me Deus...

 
At quinta-feira, julho 14, 2005 5:42:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"eh las" ou "hellas"?

 
At quinta-feira, julho 14, 2005 8:40:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Cristina, estórias e ironias são giras. Mas no final torna-se necessário concretizá-las.

Pedro:
Mais uma excelente crónica.

Lembro-me das aulas de TLB que falas. Sem saudade. O motivo já referiste. Mas da boa Matemática e do meu querido Português é um sentimento que não deixa de acontecer. E, em jeito de reflexão às tuas palavras, a Matemática é a prática em si, objectivamente, e as aulas de Português traziam-me o debate da poesia, em que me era permitida a liberdade da palavra.
Técnicas de Expressão é uma excelente cadeira. Contudo, recordo alguns momentos em que pensei que poderia ser algo melhor. Não discordo da tua opinião. O quero dizer é que, sendo esta tão boa e aberta a upgrades, as outras – menos boas – já se mexiam…

Permite-me que sublinhe, integralmente, os teus últimos quatro parágrafos.

 
At sexta-feira, julho 15, 2005 8:01:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

meu caro colega bloguista, estás de parabéns!! na sequência daquilo que vem sendo timbre, elaboraste um excelente post em que focas aspectos esscenciais e acerca dos quais devemos todos reflectir! é necessário que todos nós nos apliquemos, mas a reforma no ensino é fundamental!

partilho também da tua opinião acerca do mundo universitário! sempre achei que na Universidade havia um incessante interesse pelo saber, e não apenas pelo passar de ano! ninguém assemelha conhecimentos, e o mais preocupante é que ninguém parece importar-se! desde que se passe... acerca de técnicas assino por baixo!

 
At sexta-feira, julho 15, 2005 8:45:00 da tarde, Blogger Alberto Miguel Teixeira said...

Também acho que uma reformazinha (bem, não deve ser assim tão pequena, mas...) no sistema de ensino era muito bem aplicada, e isto desde que desse frutos, como é obvio.
Quanto à carga horária dos professores, há professores que apenas trabalham efectivamente 10/14 horas por semana, longe das 40 horas de um trabalhador normal. Ora bem, a estas 14 horas complementavam-se mais umas horitas por ser parte de um conselho directivo qualquer, complementavam-se mais umas horitas por ser o coordenador de um clube de inglês ou de matemática, que era pouco frequentado, e assim, aos poucos, ia-se recompondo um horário perfeitamente compatível com o que se queria. Assim é fácil ser-se professor. Mas esta é uma das profissões que acontece isto.
Outro assunto que queria referir, era de que muitos dos professores que acabam de dar aulas e raformam-se, aproveitam as longas horas do dia para dar explicações, e daí tirar um rendimento muito maior daquele que tiram da reforma, e não declarar esses rendimentos no IRS. Muitos professores aproveitam também para dar explicações durante o seu tempo laboral, e com o mesma destreza, não declara esses vencimentos. Ora bem, com muitos professores no desemprego, era bom que os que já se reformaram ou que ainda leccionam não fossem muito gulosos, mas também que os que estão desempragados tivessem uma atitude mais interventiva que comtemplativa.
Quanto ao "gosto por saber", tou perfeitamente de acordo contigo, e isto não só noto na universidade com também já notei na primeira classe, na segunda e por aí além. Muitos são os jovens que mal acabam o nono ano, por exemplo, e já só pensam em trabalhar numa tinturaria ou numa fábrica de meias, para garantir uma salário que dê para comprar uma mota ou um carro, e que dê para sair com os amigos, para um bar/discoteca qualquer, ou para uma romaria mais ao jeito rural, e fazer-se, de peito erguido, às muídas, mostrando a mota ou o carro, com as jantes novas ou tubo de escape cor de rosa :). Quanto às aulas de técnicas, quem sabe, sabe, e o professor sabe empregar dinamismo às suas aulas, e sabe muito bem o que quer. Bom post. Abraço

 

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