23 julho 2005

Um Ocidente masoquista

No passado dia 21 de Julho os extremistas islâmicos voltaram a atacar.
Foi o segundo ataque a Londres em menos de duas semanas, e o terceiro atentado da Al-Qaeda na Europa - o que não quer dizer que muitos mais não tenham sido impedidos.
Perante tantos - e tão graves - ataques, não faltou quem quisesse - por vezes desesperadamente - arranjar culpados onde eles não existem.
Lembro-me, apenas para citar os exemplos mais recentes, de António Vitorino - para quem as acções terroristas tinham a sua origem na pobreza em que o mundo árabe vivia e vive ainda.
Lembro-me também de Mário Soares, que culpava a ocupação do Iraque.
E lembro-me ainda de Boaventura Sousa Santos (BSS), para quem tudo se limitava à humilhação que os árabes sofriam às mãos dos ocidentais.
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Os argumentos deste tipo agradam muito aos progressistas.
Contudo, uma análise mais cuidada revela as bases frágeis e tíbias sobre as quais toda esta retórica está alicerçada. Mas vamos por partes.
Ponto primeiro: a pobreza não é, definitivamente, a causa do terroristo - pelo menos, deste terrorismo.
Questionemo-nos: serão os líderes destas organizações indivíduos pobres, maltrapilhos ou indigentes?
É óbvio que não - veja-se o caso de Bin Laden.
E os bombistas propriamente ditos? Serão eles recrutados das camadas mais baixas da sociedade?
Também não, fácil de ver - às mentes mais retinentes recomendo que se informem acerca das profissões exercidas pelos culpados dos ataques a Londres da semana passada.
E, para dar por findo este ponto, uma última pergunta: será que há alguma relação entre a pobreza e o crime terrorista?
De novo, a resposta é não. Até porque, se isso fosse verdade, seria África - e não o Médio-Oriente - a grande "Meca" do terrorismo. Identificar a pobreza com terrorismo é, portanto, um erro crasso.
Mas e que dizer da tese de Mário Soares?
Quanto a isto, creio que basta afirmar que os atentados às torres gémeas - os mais graves de todos - se deram muito antes da invasão do Iraque pelas forças da coligação. Aliás, as invasões do Iraque e do Afeganistão foram precisamente uma consequência dos ataques do 11 de Setembro.
Resta, portanto, a tese peregrina da "humilhação", focada por BSS.
Penso que este é um ponto fulcral de toda a questão: o que é a "humilhação" para BSS?
Na Europa, os muçulmanos podem seguir a sua religião e ver os seus pensamentos respeitados.
Na Europa, os muçulmanos têm direito a condições de que não dispõem nos seus países de origem (segurança social, liberdade, etc.).
Na Europa, as mulheres muçulmanas não são espancadas por mostrar a face nem apedrejadas por terem sido violadas.
De que se queixa, então, BSS?
A única resposta plausível é que os muçulmanos, infelizmente para BSS, não têm nada de que se lamentar.
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Ao contrário do que pretendem alguns iluminados da Esquerda , este terrorismo não é uma forma de luta contra imperialismos ou tiranias - a única forma que povos minoritários teriam para se poderem expressar.
Cegos pela ideologia, estes radicais esquerdistas tendem a ver tudo como diferenças culturais. Diferenças que não podem ser combatidas com armas mas com ideias. No fundo, a solução é o diálogo.
Esquecem-se, contudo, que o diálogo só é possível quando há nele duas partes interessadas - uma que quer falar e outra que quer ouvir.
Ora, neste caso a "outra" parte não quer ouvir.
E não quer ouvir porque o que está aqui em causa não é uma luta por um objectivo político - como a concessão de terras, a igualdade entre etnias, etc. - mas sim um objectivo religioso: a única coisa em que os extremistas islâmicos estão efectivamente interessados é na destruição de um modo de vida - representado pelo mundo ocidental - que vai contra os seus princípios.
Não ver isto é não compreender nada (como diria Mário Soares).
É fechar os olhos ao niilismo em que começamos a cair quando admitimos que em mesquitas francesas e inglesas se incite os fiéis a praticar a jihad - sob o pretexto do respeito pelas culturas diferentes.
Ou quando achamos normal que alguns líderes árabes - residentes em solo europeu - apareçam na televisão a dizer que os atentados foram uma coisa positiva.
A respeito disto, falaram bem dois jornalistas do jornal árabe Al-Sharq Al-awsat, ao denunciarem os donativos que algumas capitais do Médio-Oriente fazem para "caridade" - que neste, caso, é mais conhecida por "guerra santa"; um dos jornalistas fez também uma afirmação que julgo paradigmática: «Enquanto ouvirmos vozes de muçulmanos condenar os atentados com "mas" e "se", os bombistas suicidas e os assassinos terão razões para pensar que têm o apoio dos muçulmanos.»
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Apenas estranho uma coisa: porque é que os suspeitos do costume, que se mostram sempre tão lestos a procurar as causas do terrorismo, não se mostram igualmente solícitos a procurar "relativizar" outras questões?
Por que é que o terrorista islâmico vê os seus actos minimizados pelo facto de provir de uma cultura diferente mas o capitalista americano não tem direito à mesma indulgência?
Por que é que o extremismo tem de ser compreendido mas o fascismo não?
Por que é que se diz que a invasão do Iraque foi um erro completo e não se diz que em consequência disso quase 80% dos dirigentes da Al-Qaeda estão mortos ou foram capturados?
Não tenho respostas para isto. Será compreensão mútua entre ideologias? Sinceramente, não sei.
Mas sei uma coisa: esta via - a da desresponsabilização do terrorista e consequente imputação de culpas ao Ocidente - não é a via a seguir.
Não nos devemos sentir culpados por vivermos em liberdade.
Ou por podermos dizer o que pensamos.
Ou por não obrigarmos as mulheres a taparem o rosto.
Ou por vivermos num mundo pacífico onde cada um pode escolher a sua religião.
Mas claro, cada um sabe de si. Até porque o masoquismo não paga imposto.

21 julho 2005

Um momento de Reflexão

Estou a trabalhar! É verdade, aqui o capitalista, o Homem de direita, preguiçoso e que não tem nada para fazer na vida, está a trabalhar… e não estou a ser pago! Aceitei uma proposta do meu Pai para trabalhar na empresa dele a custo zero. Não tive problemas em fazê-lo, pois não tenho família para sustentar nem grandes despesas e sobrevivo com os trocos que vou recebendo de tempos a tempos de familiares.
Contudo, estando nesta situação começo a pensar nos milhares de trabalhadores que fazem muito mais do que eu e ganham o mesmo: 0. A diferença é que enquanto eu tenho cama, casa, comida e roupa lavada esses não têm nada. Deve ser, de facto angustiante para um Homem chegar a casa e não ter nada para dar aos filhos, nem poder pagar uma jantarada à família. Quando se tem família, a obrigação da cabeça desse agregado é sustentar os restantes elementos. É para isso que ele trabalha! E quando vê que não consegue corresponder aos “requisitos mínimos” deve ficar extremamente angustiado! Ele quer trabalhar, quer trazer o pão para casa, mas não o deixam!
Depois penso naqueles que ganham o suficiente num mês para sustentar 100 famílias destas num ano, e vejo que o Mundo é de facto injusto. Porque será que o ex- director da Caixa Geral de Depósitos tinha prevista uma reforma de 13 000 € mensais? Porque raio é que o director do Banco de Portugal, que tanto fala no défice e na necessidade de apelar ao rigor orçamental, decidiu renovar a frota de automóveis do Banco precisamente nesta altura? Porque raio é que o Miguel, que ganha 13 000 contos (!?!) por mês apenas por correr atrás de uma bola, quer sair para ganhar mais, e por isso dá-se ao luxo de faltar ao seu emprego? Porque será que o nosso Primeiro-ministro tem 3 (ou 4, confesso que não me lembro) secretárias, e pior do que isso, despediu as que já lá estavam, tendo-lhes pago uma choruda indemnização?!! Porque é que a função pública insiste em promover a greve, em deixar de trabalhar, só porque querem mais dinheiro. Quer dizer, para mostrar que merecem ganhar mais, não trabalham? Porque raio é que ainda há alguém que dá ouvidos aos líderes sindicais? Será que precisamos mais de um aeroporto novo (mais um investimento de vulto em Lisboa) e do TGV, do que de hospitais eficazes (alguém acredita que o S. Marcos é dos melhores hospitais do país!?!) em (pelo menos) todas as capitais de distrito? Será que era mesmo necessário substituir as direcções da Companhia das Águas e da Galp, pondo lá indivíduos tão competentes como Nuno Cardoso e Fernando Gomes, tendo estes novos administradores procedido à “limpeza” do restante conselho de administração das respectivas empresas, e sabem que mais: Mais uma gritante verba para pagar indemnizações!
Eu sei porque razão tudo isto acontece… Acontece porque somos egoístas, egocêntricos e não pensamos no tal homem que trabalha nos campos, na construção ou noutra actividade; que é mal remunerado; e que chega a casa sem nada para dar à sua família; vivendo por isso em completa e perfeita angústia. Portugal é um país pobre não por causa do défice orçamental (o da Alemanha também é gigantesco e vive-se bem melhor) mas sim por causa da pobreza social! Enquanto que as pessoas não tiverem razões para rir, razões para se orgulharem daquilo que fazem e de cumprirem com os seus deveres familiares, seremos sempre pobres.
E a verdade meus amigos é exactamente esta. Por isso, sempre que vejo os trabalhadores da função pública a protestar, o Miguel a reclamar, o Fernando Gomes a falar, penso sempre nesse homem (ou mulher) que chega a casa de mão a abanar.
Porém, depois desligo a TV ou o rádio, venho para o trabalho, faço umas facturas ou recibos, vou ver alguns clientes, navego na net à borla, ponho-me a ouvir Pearl Jam, Metallica, Pink Floyd ou Led Zeppelin (os CD’s disponíveis na loja) e também eu me esqueço do homem. Afinal sou igual ao Vítor Constâncio…

15 julho 2005

Conselhos para Férias

Agora que todos os alunos de Comunicação Social estão de férias (pelo menos eu já estou), decidi ser oportuno ajudar os meus comparsas a melhor escolherem o local de férias, e procurei situações de férias menos habituais. Em vez de vos mandar para o Algarve, decidi pesquisar vários outros locais (e campos de férias) onde vocês podem parar uns dias para recarregar as baterias.

“Campo de Férias de Alberto João Jardim”
Aqui, nesta instância turística situada no Funchal, podem usufruir de todas as belezas da Madeira, como as praias, a fauna e flora locais, os restaurantes, as visitas guiadas e tudo isto sem ter que aturar com os políticos do Continente, com os Jornalistas do Continente e nem com os chineses e os indianos que a esta hora já foram deportados para as suas terras natais. E, como não podia deixar de ser, vão também ter a companhia permanente de presidente Jardim, quer sob a forma de retracto (presente em todas as paredes da instância), quer sob a forma de voz, já que durante a noite é solicitado aos hóspedes que ouçam uma cassete com discursos do Presidente Alberto João para que nós, infelizes continentais, possamos aprender com quem sabe e acordarmos mais inteligentes! Ah!, e não esquecer a visita ao local no Aeroporto do Funchal em que o próprio Alberto João dá o “pontapé no cu” aos imigrantes para os auxiliar a entrar no avião!

“O Local de Descanso”, patrocinado por Santana Lopes
O ex- ainda- para já- temporário Presidente da Câmara de Lisboa também patrocina uma instituição turística este ano, acompanhado por Nuno Morais Sarmento. “O Local de Descanso” oferece uma semana relaxada no Guincho acompanhada por saídas nocturnas a Lisboa supervisionadas pelo próprio Santana Lopes! O Pedrinho oferece ainda bilhetes para jantar na relva do Estádio José Alvalade e há a possibilidade de acompanhar Nuno Morais Sarmento a mais uma visita a Cabo Verde paga com dinheiros públicos. Um outro doce que este campo dá a quem o visita, é a oportunidade de sair com todas as ex- namoradas (e mulheres) de Santana. Cinha Jardim está disponível! Claro que isto é um extra e tem de ser pago à parte, ao próprio Santana.
O autarca confidenciou-nos que teve a ideia quando ainda estava no governo pois disse que com tanto tempo livre, teve oportunidade para se lembrar da necessidade de realizar um iniciativa deste gabarito! Celebridades como António Guterres, Freitas do Amaral, Paulo Portas e Lili Caneças já reservaram lugar! Não deixe que o Marques Mendes ocupe o seu!

“Campo de Recrutamento do Professor Moisés Martins”
O reconhecido professor de Semiótica da Universidade do Minho também resolveu dedicar-se à gestão de um campo de férias. O “Campo de Recrutamento” procura encontrar o próximo Ferdinand de Saussure. Para tal os seus visitantes são convidados a estudar todas as obras semióticas do passado de modo a formarem as suas próprias teses e escreverem best-sellers como o próprio Moisés! O estudo de Saussure, Barthes, Ducrot, Ricoeur, Jacques, Joly e Greimas é indispensável sendo que Bourdieu, Foucoult, Giddens, Chomsky e Peirce também estão disponíveis. Há seminários frequentes sobre estas diferentes perspectivas, sendo que Moisés é o orador principal em todas elas. Suspeita-se que metade dos alunos de Comunicação Social já se inscreveram, preparando ansiosamente o próximo ano de Semiótica.

“Time to Play the Game- Time to Relax”
O ex- campeão do Mundo de Pesos Pesados, Hunter Hearst Helmsley, mais conhecido como Triple H, decidiu apostar no mercado Português como local do seu campo de férias! Tendo em conta o sucesso que a WWE está a ter em Portugal, o campeão decidiu que deveria premiar os portugueses com esta sua vinda. Este campo de férias possibilita aos seus visitantes a possibilidade de relaxar ao som da música de entrada do lutador, que toca interruptamente! O único lugar que não contempla a canção é o ginásio, que está coberto por televisões que passam os melhores combates de Triple H e alguns dos seus mais fortes discursos, para inspirar o utilizador! Na sala de cinema, o filme escolhido para exibição foi o “Blade III”, pois foi nesse mesmo filme que o actor se estreou em Hollywood. Na biblioteca há dois livros disponíveis, “How to play the Game” do próprio Triple H, onde o lutador revela os cuidados físicos a ter para que possamos ter um corpo como o dele; e a autobiografia de Ric Flair “To be the man, you have to beat the man.” Sabe-se que o Triple H estará no local a dar conselhos acerca de como manter a postura, e as presenças de Batista, John Cena e Shawn Michaels estão asseguradas, enquanto convidados do talk-show diário que o lutador irá apresentar na colónia!

“Colónia de Férias do Fiel ou Infiel”
É verdade, José Eduardo Moniz após aperceber-se do sucesso televisivo do programa decidiu apostar numa colónia de férias baseada no mesmo conceito: a infidelidade. Durante o dia todos os hóspedes estão fechados no quarto. No canal só passam programas do “Fiel ou Infiel”, e o telefone (instalado em linha fechada) só dá para um número: o do João Kléber, que passa o dia com as sedutoras e com os sedutores ensinado-lhes os truques necessários.
À noite toda a gente junta-se no anfiteatro onde dois casais são escolhidos á sorte para serem testados. Depois, todos reúnem-se e é dado ao membro do casal que não vais ser testado o guião de insultos; a cena da pancadaria é ensaiada algumas vezes; e a produção entrega a Kléber o guião do teste. O teste consiste numa fantasia do membro a ser testado. Pode passar por uma noite na enfermaria, ou numa ida à missa. Os sedutores são muito eclécticos e competentes! No fim do programa toda a gente junta-se e dá-se lugar ao “gang bang” da praxe em que Kléber foge com as sedutoras e os sedutores ficam encarregues dos restantes.

Não pensem os leitores que me esqueci de incluir os “resorts” de Luís Campos (“A Pré- Época”) e de Francisco Louça ( “Sexo, Drogas e Aborto”). Simplesmente não posso incluir todos. Mas fica aqui o registo dos campos de férias mais “ in” deste Verão.

12 julho 2005

O Ensino que temos

Eu vi, como toda a gente viu, as manifestações dos professores.
Em prol de direitos que o Governo agora lhes quer retirar.
Um desses direitos é a actual idade de reforma, que, segundo o Primeiro-Ministro, vai ser aumentada.
Para o líder sindical Paulo Sucena, esta nova medida aplica-se bem a outras classes da função pública mas não aos professores. Isto porque, como ele gosta de sublinhar picantemente, «ser professor é uma profissão de desgaste rápido.»
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Os partidos mais à esquerda - PCP e BE - apoiaram esta luta.
Porquê?
Porque acham que é justo que um professor se possa reformar dez anos antes de um metalúrgico ou de um pedreiro?
Porque acham que é justo que um professor tenha mais tempo de férias e menos carga laboral que um trabalhador de uma linha de montagem?
Não me parece.
Apoiaram porque têm uma perspectiva bastante precária do trabalho.
É que a Esquerda tende a ver o trabalho como algo que deve ser eliminado. Sob esta concepção, o trabalho embrutece, cansa, fustiga - enfim, apenas deve ser tolerado como um mal necessário.
Ora, o trabalho não tem que ser forçosamente uma coisa má.
Perguntem a um jogador de futebol.
Perguntem a um matemático.
Ou a um educador de infância que tem paixão pelo que faz.
A questão não é, portanto, acabar com o trabalho - mas sim valorizá-lo.
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Entendo que pôr as coisas nestes termos é também muito simplista. As profissões não são igualmente estimulantes - compreendo que dar aulas a jovens sem educação, pouco interessados e desatentos deve ser tudo menos agradável.
Mas aquilo que torna a profissão tão extenuante é também aquilo que a pode tornar gratificante.
Um professor tem oportunidades únicas.
Contactar todos os anos com pessoas novas, falar, explicar. Dissertar acerca de um ou mais temas nos quais se especializou - e isto pode tornar o ensino um prazer.
Mas, para que o ensino seja um prazer, é preciso potenciar as suas coisas boas e tentar reduzir as más.
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Parece-me que duas coisas muito importantes devem ser feitas.
A primeira é apostar na formação - intensa e de qualidade - dos professores.
A segunda é restituir à sala de aula o respeito que ela merece.
O professor - especialmente aquele que lida com os mais jovens - deve ser capaz de estimular neles o gosto pelo saber. Pô-los a pensar. A duvidar. A perguntar o porquê e o como. A colocar perguntas difíceis, mesmo que o assunto focado se desvie um pouco da matéria em questão (até porque um «não sei mas vou-me informar» não deveria ser, para o professor, algo tão difícil de dizer).
Julgo que esta medida, só por si, poderia acabar com muitos dos problemas do nosso Ensino.
É que um aluno que tenha, desde cedo, interesse pelas matérias e conhecimento das bases, é um aluno que terá maior facilidade, um dia mais tarde (no Secundário, ou até no Ensino Superior), em estar atento e se imiscuir nos assuntos em debate. E por favor não digam que apenas um rapaz de boas famílias e com uma sala a transbordar de livros é capaz de achar interessante a matemática, a biologia ou química - isso é um argumento falso. Podia, para rebater essa ideia, invocar os nomes de Edison ou Faraday, mas creio que é suficiente mencionar as conferências - de carácter científico - que a Royal Society promove todos os anos em Inglaterra, tendo por alvo crianças de poucos recursos económicos; é que as ditas conferências estão sempre lotadas...
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Penso também que uma das coisas que torna as aulas mais cativantes é a componente prática - algo que é muito bem explorado nos países anglo-saxónicos mas que por cá ainda é feito em moldes completamente errados.
Vou dar dois exemplos bastante concretos - um mau e um bom.
O mau é aquilo que se costuma fazer nas nossas escolas secundárias e diz respeito às aulas práticas de Técnicas laboratoriais de biologia (TLB).
O objectivo duma aula de TLB é que os alunos consigam, mediante alguns conhecimentos teóricos e através de uma observação ao microscópico, visualizar determinado fenómeno, relacioná-lo com os conhecimentos adquiridos nas aulas teóricas, e, através destes, elaborar uma conclusão, que deve ser exposta - tal como um desenho da observação efectuada - num relatório.
Até aqui tudo bem.
O grande problema é que estas aulas são um verdadeiro atentado à inteligência - e à sanidade mental - de cada um. Não se espantem: os procedimentos experimentais, os raciocínio implícitos, as inferências lógicas e as próprias conclusões são previamente fornecidas em manuais criados para o efeito.
Ou seja, estas aulas acabam por se tornar um local onde os alunos saltam por cima das mesas, fazem passes de sapateado sobre as cadeiras, passam duas horas a molharem-se uns aos outros com azul de bromotimol ou água iodada e, por fim, dedicam os últimos trinta minutos a copiar o relatório do manual para a folha de exercício. Em muitos dos casos, o aluno nem sequer chega a tocar no microscópio.
O segundo exemplo - o bom exemplo - é a cadeira de Técnicas de Expressão.
Nesta cadeira - que frequentei este ano -, as aulas foram interessantes, havia diálogo, havia experimentação, havia um processo de aprendizagem em que o aluno sentia que efectivamente estava a adquirir conhecimentos.
Este "processo" culminou com a realização de uma "performance" no final do ano, algo que foi extremamente gratificante para todos. Aqui está uma prova de como as componentes práticas podem ser feitas num ambiente sério e responsável mas, ao mesmo tempo, divertido e compensador.
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Pela minha parte, penso que a reforma do Ensino é essencial.
O gosto pelo saber - ou mera curiosidade, se lhe quisermos chamar assim - é coisa que cada vez menos se vê.
Eu, por exemplo, movimento-me num meio académico, onde seria de esperar que as pessoas tivessem um interesse, ainda que mínimo, por aquilo que aprendem (afinal de contas ,estão no curso que escolheram).
Mas não é isso que vejo. Salvo algumas excepções, constato que a grande maioria dos universitários - mesmo do meu próprio curso - não vê, naquilo que aprende, o mínimo motivo de atracção. As cadeiras são para ser feitas, não para ser compreendidas. Os alunos não tiram delas qualquer rendimento adicional para além da nota que obtêm no final do semestre.
E, quando falo de "gosto pelo saber", não me refiro a ler 6 horas seguidas de Goethe ou Tolstoi, conhecer a vida toda de Mozart ou querer saber todas as classes, ordens e famílias de animais - "gosto pelo saber" pode ser apenas perguntar porque é que as coisas caem para baixo ou porque é que espirramos quando estamos constipados.

07 julho 2005

Um mundo idílico

Ken e Barbie vivem num mundo especial.
Apesar de, como todos os casais, terem as suas brigas de vez em quando, uma chatice aqui e acolá e, muito ocasionalmente, sofrerem de crises de ciúmes agudas, Ken e Barbie são felizes.
É que o mundo em que estes dois personagens vivem não é um mundo normal - é um mundo especial.
Neste mundo, não é preciso pagar propinas e os numerus clausus há muito que são uma vaga lembrança nas cabeças dos mais velhos. Apesar disso, a qualidade do Ensino Superior tem subido de vento em popa e os alunos estão cada vez mais empenhados em terminar os cursos.
Neste mundo, a polícia não anda com armas e as forças de segurança viram, de há uns anos para cá, o seu raio de acção e poder de intervenção muito diminuídos, a droga foi despenalizada e a imigração tem carta branca para entrar e saír do país. Mas sosseguem aqueles que pensam que "neste mundo" a criminalidade disparou e a violência alastrou: hoje, "este mundo" é um sítio completamente seguro para se viver, de tal forma que praticamente já não há registos de actividade criminosa nos arquivos da polícia.
Neste mundo, os impostos descem a cada dia que passa, as empresas são severamente taxadas, a idade de reforma anda à volta dos 52 anos e há pensões gordas para desempregados, imigrantes, idosos, velhos, novos, adolescentes e praticamente tudo que tenha duas pernas e dois olhos na cara. Graças a estas medidas, a economia prospera, o desemprego é quase nulo e o défice está controlado.
Este mundo é perfeito. Como dizia Nicolau Santos na sua crónica habitual no Expresso, «este mundo só tem problema: não funciona.»
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Vem isto a respeito - e talvez venha um pouco tarde, dados os acontecimentos que têm marcado a actualidade - do popularíssimo Live Aid (julgo ser este o nome) que teve lugar, este ano, em Edimburgo, Escócia.
Este evento, que já conta com alguns anos de existência, tem como objectivo alertar o mundo Ocidental, e particularmente o mundo "rico" (falamos de Bush, Blair, Chirac e afins), para os graves problemas de África, tais como a fome, a pobreza, a miséria.
Óptimo: pela minha parte, estou avisado.
Neste mundo, como no mundo da Barbie e do Ken, a receita para acabar com todos os males é simples. Tão simples que quase choca. Para Bono e os amigos, a primeira coisa a fazer, se queremos que África progrida, é perdoar a dívida.
Mas ísto é só primeiro ponto. De seguida, a Europa e os Estados Unidos devem mandar dinheiro para o continente africano. Muito dinheiro. O dinheiro, já o dizia o outro, é como a memória RAM: nunca é demais. Por último, mas não menos importante, os países ocidentais devem financiar a agricultura africana, de forma a que esta possa competir com a agritultura europeia.
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É uma boa ideia.
Aliás, mais que uma boa ideia, é uma ideia bonita.
Bonita porque é fácil incutir, em jovens revolucionários, a ideia de que todos os males da humanidade radicam na opressão dos países pobres por parte dos países ricos. É um cenário que vende, é uma causa "nobre" e é uma oportunidade de união para lutar contra os capitalistas que esmagam o proletariado sob o peso dos cifrões.
Esta é uma forma de ver a questão - a forma errada.
Errada porque a ajuda a Àfrica é, no actual contexto, e perdoem-me a crueza das palavras, muito, mas mesmo muito difícil.
Em primeiro lugar porque quem manda em Àfrica não é o pobre, o explorado ou o miserável. Quem manda em África são pessoas que têm interesse na manutenção desta situação (a título de exemplo, José Eduardo dos Santos, aquele senhor que se desloca de avião privado).
Ora, é precisamente a esta gente que o Live Aid que entregar dinheiro de bandeja. "É para distribuir pelo seu povo", afirmou Bob Geldof. Ledo engano, meu caro Bob: o dinheiro vai direitinho para o bolso (ou para o Ferrari, ou para o palácio, ou para o avião a jacto) dos líderes africanos.
Claro que se poderia sustentar estas pobres pessoas através do envio, em doses industriais, de alimentos. Mas isso apenas serviria para promover o crescimento demográfico de países que não têm condições para subsistir por si mesmos. Evidentemente que, a uma certa altura, as coisas chegariam ao ponto de saturação, onde já não seria economicamente possível sustentar os milhões e milhões de bocas famintas de alimento.
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Estas actividades valem o que valem.
Sem pôr em causa as boas intenções - que as haverá, certamente -, parece-me que os concertos se tornaram (apenas) mais um palco de propaganda política por parte da extrema-esquerda, que ali, e aproveitando-se de alguma ingenuidade (e até ignorância), encontra terreno fértil para lançar as sementes do anti-americanismo primário, cujos expoentes máximos são as celebérrimas paradas "anti-globalização" (será que algum deles sabe efectivamente o que é a globalização?), que são, aliás, verdadeiras manifestações de espírito cívico.
Creio que, "descascado" o "embrulho" do Live 8, sobra pouca coisa. Porventura, apenas a boa vontade. Na minha opinião, não vale uma montra partida.