30 junho 2005

Que desconsolo

No outro dia estava a falar com um primo meu que vive nos EUA, e estávamos a conversar acerca da actual situação de Portugal. Falei-lhe da crise económica, da crise política, da crise governativa, da crise social, da crise educativa, da crise de segurança, enfim de todo o triste panorama nacional.
E a reacção dele foi de espanto. Como é que num pequeno País como Portugal era possível manter os anteriores privilégios da função pública? Como era possível a esses funcionários ganhar tanto e produzir tão pouco? Como é que é possível que um pequeno país como o nosso que vive das suas poucas exportações, possa importar mais do que exporta? Como é que este país pode sobreviver se não procurar adoptar recursos de energia alternativos, sabendo que o petróleo irá ficar cada vez mais caro? Como é possível os professores fazerem greve em plena época de exames? Como é possível que 500 indivíduos entrem pela praia de Carcavelos adentro, assaltem os banhistas e não sejam presos? Como é possível que um país que deveria procurar fazer do Turismo uma força, envie todos os estrangeiros para o Algarve? Não haverá mais nada para ver? Como é que é possível os polícias ameaçarem uma “greve às multas”? Vão deixar de existir contra ordenações?
E ele tem razão. Nunca conseguiremos sair desta crise se não nos mexermos nesse sentido. Nós estamos habituados a que o Estado resolva as coisas por nós, que nos dê subsídios e nos sustente. Pois o tempo das vacas gordas acabou. Goste-se ou não do governo (não sou um grande defensor do mesmo), goste-se ou não das medidas (não percebo a subida do IVA. Ok, percebo mas não aceito) o facto é que alguma coisa tem de ser feita.
O País atravessa uma grave crise, mas parece haver sectores da sociedade que a ignoram, que não lha dão o devido valor. Continuam a criticar o governo mas de forma completamente destrutiva. Tenho o máximo de respeito pelos trabalhadores da função pública, mas sinceramente eles estão a protestar o quê? Era justo que um trabalhador do sector privado só se pudesse reformar aos 62, e na função pública essa idade podia descer até aos 52? Eram justas todas as regalias dos trabalhadores da função pública? Eles por acaso estão no desemprego, como os milhares de trabalhadores da Indústria Têxtil aqui no Minho? Não recebem eles os seus ordenados (fruto dos impostos) a tempo e horas? Poderão argumentar acerca dos fracos aumentos. É um facto, mas o salário é certo, está lá todos os meses. Aos restantes trabalhadores isso não acontece.
Depois há a figura do líder sindical, que faz tudo menos zelar pelo interesse dos trabalhadores. Com manifestações como a que vimos nos últimos dias ninguém ganhou: o governo, porque ficou com as orelhas quentes; os trabalhadores que não trabalharam e por isso não irão receber esse dia; e o país que ficou mais um dia parado!! Será que as pessoas não percebem que há alturas em que se deve colocar o interesse nacional acima do resto?
Não nos esqueçamos dos professores, que tiveram a brilhante ideia de fazer uma greve (A pedir o quê? Mais benefícios? Mais tempo de férias?) em plena época de exames. Não terão eles percebido que quem saiu prejudicado foram os alunos. O primeiro ministro não se deve ter importado muito com o assunto, os filhos dele não andam no Secundário. Demonstra uma falta de bom senso atroz.
Resta a única classe com razões para protestar: os polícias. Reconheço que têm de facto fracos meios de trabalho e já mereciam maiores recompensas e modernização do equipamento, para não falar num bom aumento salarial e no seguro para as famílias. Porém quando recorrem ao insulto perdem toda a razão, e desejar a morte ao ministro não lhes fica nada bem.
Sou obrigado a concluir que neste nosso cantinho à beira mar plantado há medo de trabalhar. Só pode ser isso. O País está na cauda da Europa (em vias de ser apanhado pelos países de Leste) e a função pública vem protestar, vem reclamar direitos que julgava ter. Não consigo perceber.
Eu tenho a sorte de conhecer a realidade laboral dos Estados Unidos da América. E posso afirmar que lá as pessoas trabalham e não protestam, pois confiam no seu trabalho, e não têm medo do trabalho. Há uma ética de trabalho. Há portugueses lá que trabalham mais de catorze horas por dia, e não vêm para a Rua pedir a cabeça do ministro. Podem-me dizer: “É uma realidade diferente.” E eu concordo. Estamos a falar do país mais rico do Mundo, que se calhar não precisava de investir o que investe na produção, mas fá-lo; fá-lo pois quer ser cada vez mais rico, há espírito de sacrifício e empreendimento. Há vontade de trabalhar. Aqui não vejo isso. O que vejo é cada um querer fazer menos e ganhar mais.
Pois não pode ser. Temos de acordar e perceber que esses tempo já lá foram, e temos de criar uma onda de trabalho, de produção no país para ajudá-lo a sair desta crise maldita que nos afecta a TODOS. E posso não saber muito de economia, mas posso garantir que não é com greves disparatadas que vamos resolver os problemas de Portugal.
Sou forçado a concordar com o meu primo quando ele disse: “Dude, não te preocupes. Ao menos tens o futebol.” É, valha-nos o nosso joguinho e o meu Benfica.

Comentários

6 Comments:

At sexta-feira, julho 01, 2005 1:43:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Bom Post.
Partilho da tua opinião no que diz respeito à greve dos professores em dia de exames, críticas essas que estendeste - e muito bem - à posição adoptada pela generalidade dos sindicatos.
Subscrevo também a ressalva que fizeste do caso "especial" da polícia (a manifestação foi um tanto ou quanto despropositada mas a questão dos seguros, bem como as condições de trabalho, é uma questão que deve ser revista).
Quanto à "realidade laboral" dos Estados Unidos, tenho sobre esse ponto uma opinião bastante pessoal; mas que ficará para outra altura.

P.S. Continua no bom caminho. Porque, caso contrário, serás censurado. E olha que, ao contrário do que dizem, à segunda não custa menos... :P

 
At sábado, julho 02, 2005 12:10:00 da tarde, Blogger Monique Mendes said...

Muuito bem Phillipe, estou a ver que não passas o teu tempo só a estudar semiótica mas que tambem estas atento à situação de Portugal, que cada vez é pior!
De facto, todos devemos arregaçar as mangas e fazer algo por nós e pelo País, enfim por TODOS, mas não me parece que graves e mais greves ou as lamentações nos levem a algum lado!

Abraço!

 
At domingo, julho 03, 2005 3:37:00 da tarde, Blogger Alexandre Carvalho said...

Concordo plenamente com o que dizes sobre a crise. Mas olha lá uma coisa... O benfica é conhecido lá nos states?? hummmmm... O eusebio ainda tou como o outro, mas o benfica?? Ahhh, já sei... Se calhar o teu primo confundio com aquela equipa que joga de azul e branco e ganhou uma data de titulos internacionais nestes ultimos anos! LOOOL. Tou no gozo! Boa visão sobre os assuntos com os quais concordo plenamente, apesar de ter a minha familia a trabalhar na função publica e na classe dos professores e policias.

 
At segunda-feira, julho 04, 2005 5:38:00 da tarde, Blogger Alberto Miguel Teixeira said...

Ora bem, de facto a situação de Portugal não é das melhores. Professores em greve, por causa de quê? Não de direitos, mas de privilégios, e se a escolha não foi a melhor, quanto a isso não concordo. Se uma manifestação é para ter efeitos, claro que os professores não iriam fazer greve no período de férias. Não estou do lado deles, até acho que deveriam cortar mais, mas se, por exemplo queres ganhar mais dinheiro nua empresa, não com manifestações na "meia hora" a que tens direito ou então depois do teu horário laboral.
Quanto ao resto, sobre a utilização de novas energias, por exemplo, foi posto em cima da mesa, e isto foi notícia há bem pouco tempo, uma proposta para a criação de uma central nuclear em Portugal, que conseguiria fornecer Portugal(não sei ao exacto a area)e ainda era capaz de exportar energia para o outro lado, COM DINHEIROS PRIVADOS, e o Estado, com todas as burocracias pode atrasar o avanço desta obras. Quanto à questão do desemprego, eu posso falar por experiência própria, penso que a culpa não está só na pouca vontade de trabalhar dos portugueses. Os patrões querem fazer dinheiro com poucos investimentos e com poucas gastos ao fim do mês, para isso são obrigados a sair para o exterior, China e europa de leste, Se ficamos chateados com os "ucranianos e moldavos" por virem para aqui tirar alguns postos de trabalhos, as empresas em vez de contratar "ucranianos e moldavos" cá em Portugal, vão para o estrangeiro contratar-los na mesma.
Quanto ao principal motor da economia, que penso que seja o turismo, estou perfeitamente de acordo. Portugal não é só o Algarve. Do mesmo modo podemos pensar que a Administração não é Lisboa! Isto de estar tudo no mesmo lado não favorece em nada, pois é evidente, por menos que conseguimos imaginar, que há sempre uma troca de interesses, conivências!
Quanto ao arrastão, infelizmente contribui para denegrir uma imagem de um Portugal seguro e acolhedor lá fora.
Já agora, para finalizar, proponho que faças um exame à tua consciencia: daquilo que estás vestido, quais as roupas que têm marca portuguesa? daquilo que compras diariamente, quais os produtos que são de marca portuguesa? Lembra-te que ao comprares uma simples caneta podes estar a contribuir para a fomentação do trabalho infantil, e quem fala em caneta fala em muitas outras coisas da tua vida quotidiana, que tu não tens consciência. Eu muitas vezes não tenho esta noção, por isso tenho pouca moral, mas fica a observação. Hasta, e boas férias.

 
At segunda-feira, julho 04, 2005 5:41:00 da tarde, Blogger Alberto Miguel Teixeira said...

Ah é verdade, "o que nos valha é o nosso joguinho e o meu Benfica" Phillipe contentas-te com pouco :P

 
At quinta-feira, julho 07, 2005 4:33:00 da tarde, Blogger Hélder Beja said...

Admito que estou com pressa e que, por isso mesmo, não vou ter tempo para ler os vossos encorpados posts. (Homens, vejam lá se escrevem textos mais pequenos!:p )
Gostei do blog e especialmente daquele link para o Blog do Presidente.
Grande abraço e... olhos no chão caloiros!

 

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