21 junho 2005

Adeus Camarada!

Sei que já se passaram uns dias, mas andei atarefado e não pude publicar o post em tempo mais oportuno. Contudo, devo referir que o tema acerca do qual vou discursar (como dizia Ricoeur, “O texto é o discurso fixado pela escrita”) é intemporal devido à grande questão levantada.
Como todos sabem, no dia 13 de Junho faleceu Álvaro Cunhal. Na tarde do Sábado anterior já o general Vasco Gonçalves havia também ele desaparecido. Portanto, em poucos dias duas figuras incontornáveis do período pós 25 de Abril desapareceram para sempre.
Vasco Gonçalves liderou 4 governos provisórios num espaço pouco inferior a uma ano. Depois quase que desapareceu da vida política; Cunhal liderou o Partido Comunista Português (PCP) durante 3 décadas (algumas das quais passadas nas clandestinidade), tendo abdicado em 1992 a favor de Carlos Carvalhas. Cunhal foi perseguido, preso, torturado e ostracizado no tempo que passou na prisão (no Forte de Peniche, de 1949 a 1960). Em 1960 fugiu. Voltou após o 25 de Abril de 1974 e tudo fez para transformar Portugal numa cópia da URSS.
Para mim, Álvaro Cunhal é incontestavelmente a figura mais rica. Não só devido às suas acções políticas mas também por tudo aquilo que ele passou devido a essas suas visões políticas. Numa altura em que a repressão estava na ordem do dia, Cunhal foi sempre capaz de lutar pelos seus ideais e conseguiu habilmente ludibriar frequentemente a PIDE. Fugiu, pois só assim conseguiria organizar o partido de gente de confiança que fizesse a resistência (silenciosa e por vezes dolorosa) cá dentro e o informasse dos acontecimentos. Mesmo na clandestinidade lutou pelos seus ideais e, foi várias vezes a Moscovo falar com Estaline, e depois com Kruschev acerca de ajudas ao PCP e a Portugal. Os soviéticos sempre encararam o PCP com descrença e desconfiança, e por isso não cederam às pretensões de Cunhal.
Cunhal estava só. Mas não desistiu e, apesar do bastião do Comunismo o ter negligenciado ele continuou a luta. A sua luta.
Com o 25 de Abril, Cunhal viu todo esse esforço recompensado, e acolheu com entusiasmo a intenção da União Soviética em ajudar Portugal. Regressou a Portugal a 27 de Abril. Cunhal tudo fez para introduzir o comunismo em Portugal. De eleições a revoltas militares e a tentativas de guerra civil, tudo tentou Cunhal para implementar a sua doutrina no seu país. Não conseguiu. Com a Perestroika, Cunhal viveu iludido (não terá sido essa uma ilusão voluntária?). Acreditava que era apenas a reformulação da União Soviética, uma reestruturação. Mas, com a Queda do Muro de Berlim em 1989 e a consequente dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o comunismo na Europa desaparecia. Cunhal via o seu império ideal sucumbir devido à sua própria política. Não foi um país estrangeiro que destruiu a URSS, foi ela que se destruiu a si mesma. Consumiu-se. Gorbachev (líder soviético que instituiu a Perestroika) passou a ser um inimigo público. Cunhal acusou-o de corromper os ideais comunistas, e disse publicamente aquando da passagem de Gorbachev por Portugal que não o queria ver.
Cunhal, triste, refugiou-se em casa e na escrita de livros sob o pseudónimo de Manuel Tiago. Dizem uns que tinha bastante jeito, não só para a escrita como também para a pintura. É de consenso geral que era um homem extraordinariamente inteligente.
Não vivi esse tempo (com alguma mágoa. Deve ter sido empolgante), nem partilho dos seus ideais (nem pouco mais ou menos. Acho que num Mundo de globalização, esta doutrina nem faz sentido) mas, confesso que me sinto pequeno face ao legado deste homem. Num tempo em que vemos políticos a saltar de bancada em bancada, ministros a nomear os amigos sem qualificações para cargos de gestão importantíssimos (e é este um governo de esquerda….), sermos confrontados com um homem que defendeu sempre um ideal, que lutou por esse ideal, que sofreu por esse ideal, que nunca desistiu do seu ideal e da sua superioridade face aos outros é… (à falta de outro termo) brutal!
Álvaro Cunhal era o último grande comunista à escala Europeia. Com o seu desaparecimento o comunismo perde a sua referência, e para muitos perde também a sua força motriz. Que é o hoje o Comunismo? É um regime de opressão na China, em Cuba e na Coreia do Norte, e está representado por partidos cada vez mais moderados (são praticamente socialistas) e quase insignificantes na Europa.
Temo que com o desaparecimento de Álvaro Cunhal, o famoso ministro sem pasta dos governos provisórios, também o Comunismo tenha desaparecido.
Pelo menos ficarão para sempre na retina momentos como a sua chegada a Lisboa em apoteose, e o seu debate com Mário Soares. Grande debate. Um debate de ideias. E, claro a célebre tirada: “Olhe que não, olhe que não!”
Acabo com uma dúvida. Sei que as coisas mudaram, e por muito que defendam as diferenças entre esquerda e direita, nas questões fundamentais ela não existe, mas interrogo-me se algum dos nossos políticos de elite (Durão Barroso; António Gueterres; José Sócrates; António Vitorino; Cavaco Silva) seriam capazes de suportar o que Cunhal suportou em nome de um ideal que representa hoje um fracasso? Seriam?
Adeus Camarada!

Comentários

4 Comments:

At terça-feira, junho 21, 2005 11:05:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

Aqui entre nós que ninguém nos ouve... ainda bem que o seu conceito de "democracia" não levou a melhor... eheheh
Mas enfim, descanse em paz, foi grande.

 
At quarta-feira, junho 22, 2005 1:15:00 da tarde, Blogger Hugo Torres said...

Até amanhã.

 
At quinta-feira, junho 23, 2005 11:02:00 da tarde, Blogger CP said...

Pois

 
At terça-feira, junho 28, 2005 8:14:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

nem posso acreditar que o autor deste texto é o mesmo que corresponde com o "blog azul". Isto sim é um texto bem escrito, oportuno e com sentimento. O Dr. Cunhal foi de facto O grande revolucionário e merece todo o destaque que vier a ter na História de Portugal. Bem haja á sua alma...

Numa nota mais particular, deixem-me só expressar a minha tristeza por apenas agora encontrar este blog, pois apesar de pertencer ao mesmo grupo do "outro" é visivelmente superior.

Este foi um comentário do "Administrador"

 

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