22 maio 2005

Semana das facas longas

O primeiro foi Isaltino Morais, ex-autarca de Oeiras. Homem sério e de qualidades morais acima de quaisquer suspeitas, não teve pejo em afirmar que seria, "se o PSD assim o entendesse", novamente candidato a Oeiras. Impeditivos?
Nenhuns. A não ser porventura o processo que tem contra si por alegadas contas (de valor considerável...) no estrangeiro. "Pertencem a um sobrinho", justificou-se Isaltino. Confesso que estou impotente para contrariar tão elaborada argumentação: fiquei definitivamente convencido de que o sobrinho apenas por um insondável prazer mórbido continua a ganhar a vida como taxista.
O segundo foi Valentim Loureiro - ou apenas Major, para os amigos -, conhecido no mundo do futebol (e da política) pelas relações sólidas e cordiais que sempre se esforçou por manter com os representantes de ambos os mundos; quase tão sólidas como a sua culpa no processo Apito Dourado.
Este senhor, seguindo o exemplo do anterior, também sentiu que não havia problemas em se recandidatar (neste caso à Câmara de Gondomar).
Apesar dos processos, das acusações e afins, gente desta continua a receber o apoio do povo. Povo esse que o elege.
A verdade é que é nas Autarquias, onde mais perto se está do povo, que o populismo mais se faz notar. A falta de nível e o cultivo da demagogia mais saloia que se possa imaginar acaba sempre por trazer os mais apreciados frutos, contados em urnas e medidos em mandatos: os votos.
Com isto ganham poder, fazer reféns líderes partidários, ligam-se ao povo, ganham a sua confiança - e a sua simpatia -, criam raízes nos lugares de poder, alapando como lapas, e ganham influência.
Não resisto a invocar a imagem de Avelino Ferreira Torres, populista, burgesso, ladrão, mentiroso e Presidente da Câmara de Marco de Canaveses nas horas vagas, a passear-se em trajes menores pelos jardins de "A Quinta das celebridades", alardeando todo seu vastíssimo repertório linguístico (particularmente a terminologia suína) e todo aquele altíssimo nível cultural.
Este senhor está na iminência de se candidatar à Câmara de Amarante. E, pasmem-se, é dado como possível vencedor.
Ao que isto chegou, é caso para dizer.
É evidente que a solução destes problemas (palhaçadas?) tem de vir de cima.
A limitação de mandatos, proposta pelo PS há pouco tempo, é uma boa medida.
Mas não é suficiente - é um paliativo que peca por falta de abrangência.
O que é verdadeiramente necessário é coragem dos políticos. Cavaco disse há alguns meses que "os políticos bons deviam afastar os maus". Quase isso: todos os líderes partidários têm o dever moral de limpar o lixo "lá de baixo", ou seja, os caciques locais de qualidade duvidosa (apesar de, nos casos aqui debatidos, a qualidade já não ser sequer duvidosa).
Até agora, apenas um homem teve hombridade de fazer isso: Marques Mendes, que parece ganhar em coragem aquilo que perde em centímetros.
Numa verdadeira "Semana das facas longas" o recém-eleito Secretário-Geral do PPD/PSD afastou da corrida às Autárquicas Isaltino Morais e Valentim Loureiro, tidos como "indiscutíveis" no "plantel" do PSD.
Marques deu assim um claro sinal para o futuro - não tem medo de decisões impopulares, mesmo que para isso tenha que se resignar a perder alguns votos (numas eleições que são, aliás, muito importantes para o PSD, e em particular para o seu novo líder).
Mas certamente que as sementes que ele hoje semeia darão bons frutos. E certamamente que alguns eleitores desencantados com algumas das coisas que se passam no nosso País não deixarão de se lembrar de Marques Mendes... nas próximas Legislativas.

Comentários

2 Comments:

At terça-feira, maio 24, 2005 10:12:00 da manhã, Blogger Phillipe Vieira said...

Ai, este blog passou a ser sério...?! Pois bem, deixa-me dizer-te que concordo "ipsis verbis" com as medidas por ti defendidas, pois a corrupção começa por baixo, e claramente aqueles que estão no poder há muito tempo devem saír para não criarem raízes. Contudo, parece-me igualmente pertinente dizer que este é um país de vícios, e talvez essas medidas possam cair em saco roto. Repara que Marques Mendes excluiu o Isaltino e o Major da corrida, porém eles vão concorrer na mesma (fala-se do interesse do PS em apoiar Isaltino. Se não um apoio directo, pelo menos um apoio pós-eleições) e têm francas hipóteses de ganhar, porque o povo português é assim mesmo. Não interessa quão corrupto é o sujeito, desde ques seja popular está tudo bem... veja-se o caso Fátima Felgueiras... Ainda hoje há felgueirenses que a defendem. Por isso, Mendes pode no final de tudo, perder duas câmaras, o apoio das bases e a presidência do Partido.... É preciso ter prudência quando se mexe com as fundações de uma instituição, por que senão, ela cai...

 
At terça-feira, maio 24, 2005 3:17:00 da tarde, Blogger pedroromano said...

"Não interessa quão corrupto é o sujeito, desde ques seja popular está tudo bem... veja-se o caso Fátima Felgueiras... Ainda hoje há felgueirenses que a defendem. Por isso, Mendes pode no final de tudo, perder duas câmaras, o apoio das bases e a presidência do Partido.... É preciso ter prudência quando se mexe com as fundações de uma instituição, por que senão, ela cai... "

O exemplo da honrada Fátima Felgueiras é realmente muito bom. Mas é efectivamente por isso que é essencial que sujeitos desta estirpe deixem de ser apoiados pelos partidos - se o povo não sabe distinguir o que é do que é mau, então alguém deve fazer isso por ele. Se isto não permitir impedi-los de se candidatarem como independentes, retirar-lhes-á, pelo menos, a credibilidade (especialmente se esta for uma medida tomada por todos os partidos).

Quanto à perda dos apoios por parte das bases do partido, tenho a dizer que acho que é uma falsa questão. Em primeiro lugar porque político honrado e capaz de tomar medidas impopulares para salvaguardar o bom nome do partido, há poucos. E, ao serem poucos, tornam-se diferentes aos olhos do público. Ora, os votos que poderá perder nas Autárquicas serão certamente ganhos nas Legislativas, quando se encontra perante um eleitorado muito mais heterogéneo.
E isto dá votos.
E os votos dão mandatos e deputados.
E os deputados e mandatos dão poder.
E um líder com poder deve ser preservado a todo custo.
E assim as bases acabam sempre por ficar como que desarmadas e ser obrigadas a apoiar, ainda que contrariadas, o líder.

P.S. Mas nada como tirar a prova dos nove durante os próximos anos, não é? A ver vamos, como dizia o outro.

 

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