29 maio 2005

A murro e a pontapé

O aviso fora feito de véspera: fosse qual fosse a classificação final da I Liga, os Super Dragões, claque nobre e de feitos consagrados (desde o assalto a gasolineiras até à escolta de arguidos do Processo Apito Dourado), iram comparecer em peso na Avenida dos Aliados. Para festejar, evidentemente.
E como os festejos convidam ao barulho e o júbilo não é o mesmo sem uma pontinha de algazarra, os foliões decidiram aparecer munidos de paus. Para jogar à vara, fácil de ver.
Não se espantem: o filme é velho e pouco mais se esperaria do braço armado do inominável Pinto da Costa. "Se houve confrontos, foi porque em zona de concentração de portistas surgiram outros", justificou-se o presidente do Porto, numa clara desculpabilização dos energúmenos que, na noite anterior a estas declarações, espancaram adeptos benfiquistas cujo único pecado foi terem tentado festejar um campeonato. Como se as ruas portuenses se vissem, de um momento para o outro, tuteladas pelas claques portistas. Como se estas, por decreto divino ou bula papal (a escolha de palavras não é inocente...), tivessem ganho, de súbito, a impunidade necessária para bater a transeuntes de outras cores clubísticas (na razão de sete para um - ah, valentes!). Como se tivessem sido investidas de um poder (quiçá concedido por um neo-feudalismo tribal que reina no Porto desde os tempos do saudoso Fernando Gomes) que lhes dá o direito de determinar, a sua bel-prazer, quem pode (ou não pode) andar pelas ruas.
Nestas alturas é bom não cair em lugares comuns. Frases feitas como "o futebol é isto", "o futebol gera paixões" e "os adeptos são todos iguais" estão gastas e puídas. E, pior que isso, são falaciosas.
É que é preciso dizer basta. O problema não é a emoção que o futebol gera, o problema não é a bestialidade a que alguns descem quando vão a um estádio e não, o problema não é da sociedade angustiada e cansada.
O problema, sim, é a premeditação de um acto vil (anunciado na imprensa, para cúmulo dos cúmulos) que não foi sequer devidamente previsto pelas forças de segurança.
O problema é a militarização das claques levada a cabo pelo omnipresente Pinto da Costa.
O problema são anos e anos de complexos de inferioridade que não foram apagados nem com duas grandes conquistas europeias.
E o problema, finalmente, é a compassividade com que a política, a imprensa e a justiça encaram estes factos. Factos que mais não são que o culminar de anos e anos duma política regionalista, violenta e militarista por parte da Direcção do F.C.Porto, que conseguiu, duma forma ardilosa mas, ao mesmo tempo, extremamente proveitosa, fomentar o mais visceral dos ódios entre os adeptos de dois clubes rivais.
Uma coisa é certa: este clima de hostilidade só terminará com a remodelação dos quadros directivos do nosso futebol. Até lá... salve-se quem puder!
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P.S. Por último, tenho a lamentar que, da imprensa que regularmente leio, poucas vozes se tenham insurgido contra estes actos: um Editorial d'A Bola (pelas mãos de Vítor Serpa) e um curto texto de opinião de Fernando Madrinha, no semanário O Expresso, é pouca coisa, especialmente se tivermos em conta a gravidade de tudo isto.

Comentários

6 Comments:

At domingo, maio 29, 2005 11:50:00 da manhã, Blogger Monique Mendes said...

Romano por favor!
Isto agora vai virar blog de cariz futebolístico??!!
Espero que não! Para que não se alimente umas certas tensões que por aí andam!
Beijinhos e força com isso ;) ou entao não!
Beijinhos**

 
At domingo, maio 29, 2005 10:06:00 da tarde, Anonymous Lau said...

Só vou dizer que de facto concordo que as forças de segurança deveriam ter tido algum tipo de intervençao..Porque estar a falar em "complexos de inferioridade" penso que nao será mt correcto, ainda que haja certos aspectos que concordo naquilo que disseste...
beijos***

 
At domingo, maio 29, 2005 11:59:00 da tarde, Blogger Alberto Miguel Teixeira said...

Não é só no futebol que acontecem estes actos vis, como tu lhe chamas. E a propósito do que tu falaste, do facto dos Super dragões terem "reservado" a Avenida do Aliados, já viste alguém do PSD ir festejar alguma vitória do partido para junto da sede do PS? Certo é que se alguém o fizesse, era um acto puramente provocante e a esses actos, de certeza, que lhe responderiam com agressões verbais e mesmo físicas.
E se fosse só a claque portista a fazer isso, até nem era mau!!! Podemos ver isso na rivalidade Guimarães vs. Braga. Mas o mais ridículo aconteceu no dia em que o Benfica foi campeão, e os festejos alongaram-se até ao estádio da Luz. E sei, de fonte segura, que até lá, no estádio da Luz, onde todos os adeptos seriam do Benfica, houveram confusões e agressões de adeptos do mesmo clube! No Porto, esses energúmenos não fazem isso.
Abraço e fica bem! hasta

 
At segunda-feira, maio 30, 2005 12:39:00 da manhã, Blogger pedroromano said...

Teixeira:
A Avenida dos Aliados não é a casa do Porto - é um espaço público, onde todos podem circular. Assim como a Praça do Marquês, em Lisboa, também não é propriedade do SLB (a propósito, os festejos portistas aí decorridos nunca trouxeram problemas de maior - culturas diferentes, talvez...).
Cada um tem o direito de se manifestar onde e quando quiser desde que não perturbe o seu semelhante - foi isso que os benfiquistas fizeram.
O que é verdadeiramente inconcebível é uma claque organizar-se para impedir os adversários de festejar - e isso é algo nunca visto.
E realmente tens razão, as claques são pródigas nestes esquemas. Mas o problema não é haver pessoas assim - o problema é que estas pessoas sejam apoiadas e até instigadas pela direcção do F.C.P. Mas isso já é normal por essas bandas, claro.

P.S. Condeno quaisquer actos violentos, sejam eles levados a cabo pelos No Name Boys, Red Boys, White Angels ou a claque da equipa do Pinhalnovense; o que me levou a escrever este Post foi considerar que, neste caso, os limites foram completamente transpostos. E também uma certa revolta ao olhar para aquilo em que o Pinto e o seu séquito transformaram o futebol.

 
At segunda-feira, maio 30, 2005 1:48:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

Não há desculpa para nada disso. O Porto é uma cidade livre, e os benfiquistas do Porto (muitos...)devem poder celebrar a vitória do SLB em qualquer ponto da cidade, da sua cidade. Os benfiquistas do Porto também pagam a contribuição autárquica, e devem poder usufruir dos espaços públicos. Eles não têm culpa de que o FCP é um clube regional, e o SLB um clube Mundial com adeptos em todo o lado. O civismo também pode ser visto pela grandeza do clube.

 
At segunda-feira, maio 30, 2005 10:30:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Olá.
Embora a índole futebolística do "post" em cauas não me suscite grande interesse,tomei a liberdade de comentá-lo porque,segundo a minha apreciação,mais do que "piques" entre adeptos de clubes futebolísticos diferentes,está em jogo,se assim lhe podemos chamar,o civísmo(ou a falta dele),não só no futebol,mas de igual forma no dia-a-dia.É lamentável que seres que se intitulam racionais comentam atrocidades deste género,mas considero ainda mais deplorável que tais actos sejam justificados,quaisquer que sejam as entidades que o fazem.Não está em causa o motivo dos festejos ou sequer o local onde são exercidos,antes,um conceito muito simples que dá pelo nome de desportivismo(qualquer que seja o significado que lhe tem vindo a ser atribuído).
Apesar de simpatizar com o FCP,reconheço o mérito ao Campeão Nacional(ao contrário do que se possa pensar!) e envergonho-me de pertencer a uma sociedade que não sabe respeitar as convicções,ou preferências,dos outros!

Liliana

 

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