06 maio 2005

Era uma vez...

Esta é uma versão actualizada e revista de um popular conto árabe. Espero que gostem.
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Nessa noite, que já ia longa pelas horas e cada vez mais obscurecida pela Lua que teimava em se esconder por detrás de nuvens ameaçadoramente carregadas, Jean estava a ficar cada vez mais irritado. Sentado num degrau da R. Nova de Santa Cruz, assistia impávido e sereno à enorme discussão que os seus dois irmãos - Moisés e Alberto Sá - mantinham há mais de duas horas.
- Tu é que não sabes fazer contas, grande imbecil! - gritou o primeiro.
- Não, tu é que estás alienado com essa Semiótica toda! - retorquiu o segundo.
Jean lembrava-se com saudade daqueles tempos áureos em que seu pai ainda não tinha morrido e deixado para trás tão polémico testamento. "A minha colecção de 17 relógios deve ser repartida pelos meus três filhos. O mais velho, Moisés, receberá metade (1/2) dos relógios; o do meio, Jean Rabot, receberá um terço (1/3); o mais novo, Alberto Sá, receberá um nono (1/9)." Assim rezava a epístola última do já defunto patriarca. Foi recebida com naturalidade pelos três jovens, até que, na altura de fazer as contas, se deram conta que era impossível fazer a desejada divisão, pois:
1/2 de 17=8,5
1/3 de 17=5,67
1/9 de 17=1,89
"Quem me dera que o excesso e a profusão fornicadora da cultura tivesse apagado este testamento", pensou Jean.
Já cansados da acicatada discussão, enfim os contendores se sentaram ao lado do irmão.
- O problema é do testamento - disse Moisés, em voz rouca. -, se ele não tivesse feito um testamento impossível de ser realizado, não estávamos para aqui a discutir... - concluiu.
- Pois é. - disse o desconsolado Alberto Sá.
As horas foram passando sem que ninguém dissesse nada.
Os 17 relógios, esses, continuavam guardados em casa do curador do testamento do pai, à espera que alguém os reclamasse.
Subitamente, uma turba delirante avançou em passo acelerado e em júbilo pela rua deserta. Cantavam músicas indecorosas e de baixo nível, arrotando impropérios pouco educados e bailando ao ritmo da melodia que entoavam.
- Estudantes de Comunicação Social. - disse Jean, com desprezo. - Sempre os mesmos bêbados.
- Esperem! - disse Alberto Sá. - Eles podem ser a nossa salvação.
- Como? - perguntaram os irmãos em uníssono.
Alberto não perdeu tempo com mais conversas. Avançou por entre a multidão e puxou um dos ébrios. Em curtas palavras explicou-lhe a situação que separava a sua anteriormente unida família, e, num murmúrio quase inaudível, disse aos seus irmãos que "ele tem fama de ser muito esperto. Talvez nos possa ajudar..."
Após curtos minutos de meditação, a misteriosa figura falou:
- O vosso problema tem solução. - disse calmamente. Os rostos abriram-se numa expressão assombrada. - Mas primeiro têm que me deixar oferecer-vos uma coisa. - tirou o relógio do pulso e estendeu-o à frente deles. - Tomem, é vosso.
Eles bem disseram que não podiam aceitar, mas o seu interlocutor cortou-lhes imediatamente a palavra:
- Não, não, eu insisto. Fiquem com ele, é vosso. Façamos então as contas... Agora têm 18 relógios. Metade é 9, ou seja, são 9 relógios para o senhor, Dr. Moisés. Um terço de 18 é 6, são 6 para você, Dr. Rabot. E, por último, um nono de 18 é 2, ou seja, são 2 relógios para o Dr. Alberto Sá.
Moisés ficou boquiaberto. Cofiou a sua longa barba branca. Nem toda a Semiótica do mundo o tinha preparado para aquilo.
- Mas... - balbuciou Moisés. - Eu fiquei com 9, o Jean com 6 e o Alberto com 2... tudo somado dá 17... Resta um relógio!
- Exactamente. - disse o outro. Envolveu-o à volta do pulso e disse: - É o meu!
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História engraçada, na minha opinião. Fica uma questão por resolver: quem era o misterioso solucionador do problema? Essa pergunta, caro leitor, é um desafio que lhe lanço: quem era ele, afinal?
O mistério será desvendado num próximo Post.

Comentários

8 Comments:

At sábado, maio 07, 2005 12:10:00 da manhã, Blogger Sílvia said...

Espero que te despaches com o próximo post porque estou ansiosa para descobrir kem é o misterioso solucionador do problema...
Mais um bom post.És fantástico.Pena não gostares de mim.Mas ninguém é perfeito...lol
Bjinhux.

 
At domingo, maio 08, 2005 5:25:00 da tarde, Blogger Alberto Miguel Teixeira said...

Eu não uso relógio de pulso por isso acho que não fui eu. Eu diria que foi o Phillip... não sei porquê, mas o americano tem a mania de se armar em fino ;) heheheeh. Hasta Romano.

 
At domingo, maio 08, 2005 7:32:00 da tarde, Anonymous Sem0g said...

Sim senhor, o sr. Marm continua em grande, daqui a nada estas a escrever um livro de contos e tudo...ok nem tanto.
Continua [[]]

 
At segunda-feira, maio 09, 2005 4:41:00 da tarde, Blogger ovelha_negra said...

Mais um excelente post!!!!!!!
olha, na minha opinião, distorceste um pouco os factos. O solucionador do problema não era um solucionador, mas sim uma solucionadora!!!! Fui eu! quando estou com uns copitos a mais sobre o corpo dá-me umas crises de inteligência. E desconfio que quando tiver a uma semente de sésamo de entrar em coma alcoolico descobrirei a melhor maneira de acabar com o holocausto dos pinguins judeus de Africa do Sul.

hasta

ana paula fonseca

 
At segunda-feira, maio 09, 2005 7:08:00 da tarde, Anonymous Daniela said...

Bem, que há para dizer? O que te digo sempre, que está fantástico? Tu já sabes... lol
Bem, cá para mim o solucionador do problema seria o prof de Métodos de Investigação, nâo? Aquele tal, "João", não? lol

Um beijinho sr Pedro e vá passando no blog das cabrinhas, ok?

Daniela

 
At quinta-feira, maio 12, 2005 2:20:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Bem, eu diria que me encontro deveras estupefacta com tal enredo. Além de me encontrar extremamente ansiosa pelo desenrolar da história e prometo que não cessarei de visitar o blog até que, finalmente, nos desvendes quem é esse ser misterioso, dotado de tamanha inteligência.
Atendendo à eficácia com que deu resolução à questão, eu atrever-me-ia a concordar com a Daniela. Mas não sei bem até que ponto essa figura tão célebre, tão tranquila se deixa captar pela boémia. Não, o professor de Métodos de Investigação jamais se encontraria ébrio e, muito menos, nesse estado seria capaz de dar resolução ao problema dos 3 irmãos.
De qualquer forma, aguardo o desenlace.
Beijinhos
Cris(tiana) (blog das cabras)

 
At sábado, maio 14, 2005 2:10:00 da tarde, Blogger Alexandre Carvalho said...

Pahh, sem duvida que a pessoa que resolveu o problema foi o Pelayo! Homem de tamanha inteligencia e consciencia estetica só pode ter essas ideias! LOOOOOOL Um abraço Pedro e parabens pelo exacelente trabalho que estas a fazer.

 
At terça-feira, maio 17, 2005 10:41:00 da manhã, Blogger Phillipe Vieira said...

Sei que venho tarde mas quis esperar para ver quantas pessoas pediam ao Romano para ele anunciar quem era o sábio, para vir a público dizer que: Era ... O Rui. é verdade, ele é de uma iteligência anormal e de uma perspicácia irrefutável! é o grande "solucionador de problemas" (qual Tyson Tomko)...

 

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