31 maio 2005

Os Prémios "Primus" 2005

Para quem não sabe, além de ser um blog de estrondoso sucesso, “O Número Primo” é também o mecenas de uma pequena fundação apostada em valorizar o mérito desportivo.
Aliás, vem isto tudo muito a propósito, pois há uns dias atrás, houve aí uma cerimóniazeca no Casino Estoril, creio que chamada “Laureus”, que aspirava a ser tão reconhecida como é a Gala “Primus – Mérito Desportivo”. A única diferença é que enquanto eles alugam casinos e recintos, alojam as vedetas em hotéis da moda, e demoraram uma eternidade a entregar os prémios; nós fazemos tudo no meu quarto, com vista para o monte S. Pedro, em 5 minutos e sem esse glamour todo.
Bom, dizia eu que a entrega dos prémios foi esta última noite e houve surpresas. Por exemplo, “O Atleta Masculino do Ano” (nomeados: Maurício Pinilla; Pedro Romano; Mike Tyson; Homer Simpson) foi entregue a… Homer Simpson! O campeão mundial da cerveja (bateu na final o Pelayo) fez de 2005 o ano mais prolífero em bebedeiras (e ressacas… ) e por isso merece este título!
Já a atribuição do prémio de “A Atleta Feminina do Ano” (nomeadas: Anna Kournikova; Ana Drago; Marlene Pereira; Isabel Figueira) não foi lá uma grande surpresa. A Vendedora foi… Isabel Figueira! Além de ser a campeã das campanhas publicitárias, de ter aparecido em tudo o que é capa de revistas para homens a sério, de ter estado em todos os programas da manhã, tarde e noite da televisão nacional, ainda teve tempo ajudar dois futebolistas a melhorar a sua forma, como são exemplo o Cristiano Ronaldo e o César Peixoto, que nunca jogaram tão bem!! Ah mulher de armas! Leva uma vida cheia, coitada… merece mesmo este títulozinho!
Surpresa houve na atribuição do prémio de “Equipa do Ano” (nomeadas: Equipa de futsal de CS da Universidade do Minho; o Sporting Clube de Portugal; o Bloco de Esquerda; os Plazza). A equipa vencedora foi … “O Bloco de Esquerda”. Para este prémio muito terá contribuído o campeonato nacional de despenalização do aborto, competição na qual o Bloco distinguiu-se pela positiva chegando ao fim sem qualquer feto vivo, conseguindo assim realizar o aborto em todos os casos do campeonato, se bem que perdeu alguns pontos com a morte das mães. Francisco Louça foi receber o prémio e dedicou-o a Paulo Portas, seu amigo de infância e principal fonte de inspiração.
Bom, o prémio que se segue é o de “Revelação do Ano”. Aqui, o dito prémio poderia cair para qualquer lado (nomeados: Jean Martin Rabot; José Peseiro; Diego; Santana Lopes). Santana acabou por ser o feliz contemplado! Contudo, não pôde estar presente devido a problemas médicos (infecção no fígado), e delegou a responsabilidade de recolher o seu prémio em Cinha Jardim, sua amiga de longa data.
A noite não acabou sem que antes se atribuísse o prémio de “Regresso do Ano” (nomeados: Freitas do Amaral; Bill Clinton; Hulk Hogan; Giovanni Trapattoni) a... Hulk Hogan!! É verdade, o “Imortal Hulk Hogan” recebeu este prémio graças ao seu precioso regresso no intuito de ajudar o já lendário Shawn Michaels a vencer os malévolos Muhammad Hassan e Daivari no último Backlash!
Foi uma noite bonita, em que conheci muita gente importante… é verdade! E fiquei com o número de telefone da Isabel, pois nunca se sabe quando irei precisar dos préstimos dela!

29 maio 2005

A murro e a pontapé

O aviso fora feito de véspera: fosse qual fosse a classificação final da I Liga, os Super Dragões, claque nobre e de feitos consagrados (desde o assalto a gasolineiras até à escolta de arguidos do Processo Apito Dourado), iram comparecer em peso na Avenida dos Aliados. Para festejar, evidentemente.
E como os festejos convidam ao barulho e o júbilo não é o mesmo sem uma pontinha de algazarra, os foliões decidiram aparecer munidos de paus. Para jogar à vara, fácil de ver.
Não se espantem: o filme é velho e pouco mais se esperaria do braço armado do inominável Pinto da Costa. "Se houve confrontos, foi porque em zona de concentração de portistas surgiram outros", justificou-se o presidente do Porto, numa clara desculpabilização dos energúmenos que, na noite anterior a estas declarações, espancaram adeptos benfiquistas cujo único pecado foi terem tentado festejar um campeonato. Como se as ruas portuenses se vissem, de um momento para o outro, tuteladas pelas claques portistas. Como se estas, por decreto divino ou bula papal (a escolha de palavras não é inocente...), tivessem ganho, de súbito, a impunidade necessária para bater a transeuntes de outras cores clubísticas (na razão de sete para um - ah, valentes!). Como se tivessem sido investidas de um poder (quiçá concedido por um neo-feudalismo tribal que reina no Porto desde os tempos do saudoso Fernando Gomes) que lhes dá o direito de determinar, a sua bel-prazer, quem pode (ou não pode) andar pelas ruas.
Nestas alturas é bom não cair em lugares comuns. Frases feitas como "o futebol é isto", "o futebol gera paixões" e "os adeptos são todos iguais" estão gastas e puídas. E, pior que isso, são falaciosas.
É que é preciso dizer basta. O problema não é a emoção que o futebol gera, o problema não é a bestialidade a que alguns descem quando vão a um estádio e não, o problema não é da sociedade angustiada e cansada.
O problema, sim, é a premeditação de um acto vil (anunciado na imprensa, para cúmulo dos cúmulos) que não foi sequer devidamente previsto pelas forças de segurança.
O problema é a militarização das claques levada a cabo pelo omnipresente Pinto da Costa.
O problema são anos e anos de complexos de inferioridade que não foram apagados nem com duas grandes conquistas europeias.
E o problema, finalmente, é a compassividade com que a política, a imprensa e a justiça encaram estes factos. Factos que mais não são que o culminar de anos e anos duma política regionalista, violenta e militarista por parte da Direcção do F.C.Porto, que conseguiu, duma forma ardilosa mas, ao mesmo tempo, extremamente proveitosa, fomentar o mais visceral dos ódios entre os adeptos de dois clubes rivais.
Uma coisa é certa: este clima de hostilidade só terminará com a remodelação dos quadros directivos do nosso futebol. Até lá... salve-se quem puder!
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P.S. Por último, tenho a lamentar que, da imprensa que regularmente leio, poucas vozes se tenham insurgido contra estes actos: um Editorial d'A Bola (pelas mãos de Vítor Serpa) e um curto texto de opinião de Fernando Madrinha, no semanário O Expresso, é pouca coisa, especialmente se tivermos em conta a gravidade de tudo isto.

25 maio 2005

Uma Nova Página

Antes de iniciar o Post propriamente dito, devo avisar que a sua publicação não é virgem.
Este mesmo Post já esteve em exibição no meu anterior blog (durante 1 dia), de nome “Afrontamentos”, mas por razões totalmente absurdas foi censurado, creio que devido à filiação clubística dos demais colaboradores. Seguindo essa linha, decidi pôr termo às minhas funções no dito blog, e juntar-me ao meu colega e camarada Pedro Romano no seu blog, criado com o seu sangue, suor e lágrimas. Entristece-me a separação do anterior blog, porém por vezes não controlamos o nosso destino, e o ambiente tornou-se intolerável.
Dito isto procedo à publicação do Post, que tem um título que remete para aquilo que se sucede também na minha vida bloguista: “Uma Nova Página.” Procederei à publicação do Post, tal e qual havia feito no meu anterior blog. Apreciem e comentem. Aviso também que caso o excelentíssimo leitor não seja um fiel seguidor do Sport Lisboa e Benfica, o melhor será não ler as linhas que abaixo se inserem. Tendo feito este aviso, sinto que posso iniciar este Post. O que em está escrito em baixo foi redigido às quatro da manhã do dia 23 de Maio, a madrugada do day-after. Pois leiam:
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"Já é muito tarde, o sol já levanta e estou aqui eu a ver os directos todos das televisões e a ouvir a rádio por uma simples razão: O Benfica foi (é) campeão! O meu Benfica, a minha primeira paixão, o meu amor é de novo o dono do ceptro nacional. Durante os últimos anos, a única lembrança que eu tinha de tal feito, era a de uma tarde de quarta-feira em Braga num jogo contra o Gil Vicente em que o SLB ganhou por 3-0 e confirmou o estatuto de campeão! Desde aí nunca mais havia vibrado de tal forma. Não será de mais lembrar os momentos mais negros que passei devido à minha filiação clubística (momentos que tornam este mais saboroso). Momentos como a derrota na Luz por 0-5 contra o FCP para a Supertaça; a derrota por 2-3 com o Boavista para a Taça em ’97; a humilhação das Antas para a Taça no tempo do Toni; e as sucessivas derrotas europeias… porém não vacilei! Mantive sempre a fé e a confiança no meu clube! Fui gozado, mas não mudei! “Só os fracos desistem…os fortes resistem”. Era isto que eu dizia a mim mesmo quando tal acontecia. Amo o Benfica. Passados estes anos todos e num ano em que talvez pouca gente acreditasse, o jejum acabou, o enguiço foi quebrado e o Benfica é mais uma vez campeão, e ao ver a festa que por este País, Continente, e no Mundo se faz sinto que por qualquer razão todas as anteriores decepções são insignificantes! O País parou! A depressão foi de férias! Somos campeões! Que interessa agora tudo o resto? Os jogadores são os nossos heróis, e contra todas as adversidades e desconfianças fomos campeões! Já não nos podem apontar o dedo, já não podem fazer pouco de nós, pois agora quem Manda é o SLB! E ao contrário das micro festas que se costumavam fazer, fez-se uma macro festa. Podem dizer que este foi o campeonato mais fraco dos últimos anos, mas sabem que mais: Este conta como os outros, e isso é tudo desculpa de mau pagador, pois o campeão é sempre o campeão e adivinhem quem é agora o campeão? Não é o “Campeão do Mundo”, nem a equipa que melhor futebol pratica em Portugal (ou pelo menos eles defendem isso) mas sim o Glorioso, o clube do povo, o clube com o historial mais rico neste país, o clube que durante os anos mais negros de Portugal foi (e é) o grande baluarte, o estandarte português– Ainda hoje é fácil encontrar pessoas que conhecem Portugal devido ao Benfica – , o clube que durante esta década foi tão mal tratado (às vezes pelas pessoas que deviam tratar dele), aquele clube que passou pelo Inferno mas fez das tripas coração e regressou ao seu lugar (duvido que os nossos rivais conseguissem ultrapassar as dificuldades pelas quais nós passámos)… o Sport Lisboa e Benfica. Eu sou benfiquista, chorei quando Pedro Henriques deu por terminado o jogo, fui para a rua com a minha camisola e cachecol, e vivi algo com o qual durante anos apenas sonhei – Ser Campeão…. Amo-te BENFICA. Não poderia acabar sem reparar numa coisa: O Benfica esteve 10 temporadas sem ser campeão, porém o SCP esteve 18 e o FCP 19. Parece que não somos nós os recordistas de maior número de títulos perdidos! Força Benfica, e fazendo das palavras dos adeptos do Liverpool as minhas: “ YOU WILL NEVER WALK ALONE” (Nunca andarás só), pois nós estaremos sempre contigo. É melhor acabar pois a lágrima já está no canto do olho… Amo-te Benfica!"

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A Direcção de "O Número Primo" vem por este meio informar os seus milhares de leitores que este blog passa, a partir do presente momento, a contar com um reforço: Phillipe Vieira.
A razão do seu ingresso na família de "O Número Primo" surge na sequência de um Post um tanto ou quanto polémico que o mesmo escritor publicou num blog da concorrência e que lhe valeu uma reprimenda séria por parte do presidente do dito blog; reprimenda essa que degenerou em censura.
Assim, e com mais um elemento nas nossas fileiras, reafirmamos "O Número Primo" como um blog sério, interessante, culto, íntegro, liberal e plural. E as temáticas a abordar serão cada vez mais diversas, abrangendo áreas tão díspares como a política, o humor, a sociedade em geral, o desporto, os temas fracturantes do bloco de esquerda e as personagens mais empolgantes de todo o Planeta.
E, para concluir, aqueles que diariamente trabalham para tornar "O Número Primo" um blog útil e interessante gostariam de felicitar o novo colaborador. Eles são:
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Pedro Romano (Presidente do Conselho de Administração)
Pedro Romano (Director-Geral)
Pedro Romano (Director de Redacção)
Pedro Romano (Sub-Director)
Pedro Romano (Editor-Chefe)
Pedro Romano (Chefe do Departamento de Marketing e publicidade)
Pedro Romano (Relações Públicas)
Pedros Romanos (Redacção)

22 maio 2005

Semana das facas longas

O primeiro foi Isaltino Morais, ex-autarca de Oeiras. Homem sério e de qualidades morais acima de quaisquer suspeitas, não teve pejo em afirmar que seria, "se o PSD assim o entendesse", novamente candidato a Oeiras. Impeditivos?
Nenhuns. A não ser porventura o processo que tem contra si por alegadas contas (de valor considerável...) no estrangeiro. "Pertencem a um sobrinho", justificou-se Isaltino. Confesso que estou impotente para contrariar tão elaborada argumentação: fiquei definitivamente convencido de que o sobrinho apenas por um insondável prazer mórbido continua a ganhar a vida como taxista.
O segundo foi Valentim Loureiro - ou apenas Major, para os amigos -, conhecido no mundo do futebol (e da política) pelas relações sólidas e cordiais que sempre se esforçou por manter com os representantes de ambos os mundos; quase tão sólidas como a sua culpa no processo Apito Dourado.
Este senhor, seguindo o exemplo do anterior, também sentiu que não havia problemas em se recandidatar (neste caso à Câmara de Gondomar).
Apesar dos processos, das acusações e afins, gente desta continua a receber o apoio do povo. Povo esse que o elege.
A verdade é que é nas Autarquias, onde mais perto se está do povo, que o populismo mais se faz notar. A falta de nível e o cultivo da demagogia mais saloia que se possa imaginar acaba sempre por trazer os mais apreciados frutos, contados em urnas e medidos em mandatos: os votos.
Com isto ganham poder, fazer reféns líderes partidários, ligam-se ao povo, ganham a sua confiança - e a sua simpatia -, criam raízes nos lugares de poder, alapando como lapas, e ganham influência.
Não resisto a invocar a imagem de Avelino Ferreira Torres, populista, burgesso, ladrão, mentiroso e Presidente da Câmara de Marco de Canaveses nas horas vagas, a passear-se em trajes menores pelos jardins de "A Quinta das celebridades", alardeando todo seu vastíssimo repertório linguístico (particularmente a terminologia suína) e todo aquele altíssimo nível cultural.
Este senhor está na iminência de se candidatar à Câmara de Amarante. E, pasmem-se, é dado como possível vencedor.
Ao que isto chegou, é caso para dizer.
É evidente que a solução destes problemas (palhaçadas?) tem de vir de cima.
A limitação de mandatos, proposta pelo PS há pouco tempo, é uma boa medida.
Mas não é suficiente - é um paliativo que peca por falta de abrangência.
O que é verdadeiramente necessário é coragem dos políticos. Cavaco disse há alguns meses que "os políticos bons deviam afastar os maus". Quase isso: todos os líderes partidários têm o dever moral de limpar o lixo "lá de baixo", ou seja, os caciques locais de qualidade duvidosa (apesar de, nos casos aqui debatidos, a qualidade já não ser sequer duvidosa).
Até agora, apenas um homem teve hombridade de fazer isso: Marques Mendes, que parece ganhar em coragem aquilo que perde em centímetros.
Numa verdadeira "Semana das facas longas" o recém-eleito Secretário-Geral do PPD/PSD afastou da corrida às Autárquicas Isaltino Morais e Valentim Loureiro, tidos como "indiscutíveis" no "plantel" do PSD.
Marques deu assim um claro sinal para o futuro - não tem medo de decisões impopulares, mesmo que para isso tenha que se resignar a perder alguns votos (numas eleições que são, aliás, muito importantes para o PSD, e em particular para o seu novo líder).
Mas certamente que as sementes que ele hoje semeia darão bons frutos. E certamamente que alguns eleitores desencantados com algumas das coisas que se passam no nosso País não deixarão de se lembrar de Marques Mendes... nas próximas Legislativas.

17 maio 2005

17 de Maio

A Revelação:
Os Serviços de Inteligência e Investigação de "O Número Primo" conseguiram, finalmente, descobrir a identidade do solucionador do mistério do anterior Post.
A Investigação foi complexa mas conduziu-nos a um único nome - a sinistra figura dá pelo nome de João e tem como objectivo de vida a amostragem - constante e desenfreada - de cartões amarelos (ou até vermelhos) aos transeuntes. Com isto, encerramos este capítulo, aproveitando o ensejo para, desde já, felicitar a pessoa em questão e manifestar o nosso apoio incondicional para com tão dignificante actividade.
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A Promoção:
"O Número Primo" vem por este meio comunicar o aparecimento do mais novo blog da blogosfera, "A Santíssima Trindade":
Este anúncio é de suma importância, tanto mais que uma grande parte da Redacção de "O Número Primo" passará, de imediato, a colaborar activamente com o dito blog. A Direcção espera que os jornalistas, escritores e comentadores em questão saibam manter a bitola a que têm vindo habituar os mais assíduos leitores deste blog.
Assim, este espaço ganha uma nova área de intervenção, passando a ter o pelouro dos Posts mais sérios - o que expande os seus horizontes e alarga de sobremaneira o seu já vasto público-alvo - , dado que os de cariz humorísticos passarão a ser publicados em "A Santíssima Trindade".
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A Informação:
Apesar de, como todos sabemos, os Números Primos serem actualmente motivo da mais animada e interessante discussão no meio científico, o que é facto é que, dado o baixo nível intelectual do público deste blog, a informação não-técnica sobre os mesmos começa a escassear.
Assim, e tendo a Direcção sempre presente que este blog se destina, em primeiro lugar e antes de tudo, às massas incultas e iletradas, a rubrica "Números Primos na ribalta" será substituída pela mais acessível - e quiçá mais interessante - "O Pensamento da Semana".
O Departamento de Relações Públicas e Publicidade de "O Número Primo" espera ansiosamente pela reacção do público.
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A dedicatória:
Pois é, hoje o Post tem dedicatória. A uma pessoa que possivelmente não estará a ler o blog (quem sabe?) e que, infelizmente, "O Número Primo" não pôde contactar - apesar de hoje ser um dia um tanto ou quanto especial.
A essa pessoa, a Redacção de "O Número Primo" em geral - e mais concretamente o seu Director - gostaria de endereçar as mais sinceras Congratulações.

06 maio 2005

Era uma vez...

Esta é uma versão actualizada e revista de um popular conto árabe. Espero que gostem.
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Nessa noite, que já ia longa pelas horas e cada vez mais obscurecida pela Lua que teimava em se esconder por detrás de nuvens ameaçadoramente carregadas, Jean estava a ficar cada vez mais irritado. Sentado num degrau da R. Nova de Santa Cruz, assistia impávido e sereno à enorme discussão que os seus dois irmãos - Moisés e Alberto Sá - mantinham há mais de duas horas.
- Tu é que não sabes fazer contas, grande imbecil! - gritou o primeiro.
- Não, tu é que estás alienado com essa Semiótica toda! - retorquiu o segundo.
Jean lembrava-se com saudade daqueles tempos áureos em que seu pai ainda não tinha morrido e deixado para trás tão polémico testamento. "A minha colecção de 17 relógios deve ser repartida pelos meus três filhos. O mais velho, Moisés, receberá metade (1/2) dos relógios; o do meio, Jean Rabot, receberá um terço (1/3); o mais novo, Alberto Sá, receberá um nono (1/9)." Assim rezava a epístola última do já defunto patriarca. Foi recebida com naturalidade pelos três jovens, até que, na altura de fazer as contas, se deram conta que era impossível fazer a desejada divisão, pois:
1/2 de 17=8,5
1/3 de 17=5,67
1/9 de 17=1,89
"Quem me dera que o excesso e a profusão fornicadora da cultura tivesse apagado este testamento", pensou Jean.
Já cansados da acicatada discussão, enfim os contendores se sentaram ao lado do irmão.
- O problema é do testamento - disse Moisés, em voz rouca. -, se ele não tivesse feito um testamento impossível de ser realizado, não estávamos para aqui a discutir... - concluiu.
- Pois é. - disse o desconsolado Alberto Sá.
As horas foram passando sem que ninguém dissesse nada.
Os 17 relógios, esses, continuavam guardados em casa do curador do testamento do pai, à espera que alguém os reclamasse.
Subitamente, uma turba delirante avançou em passo acelerado e em júbilo pela rua deserta. Cantavam músicas indecorosas e de baixo nível, arrotando impropérios pouco educados e bailando ao ritmo da melodia que entoavam.
- Estudantes de Comunicação Social. - disse Jean, com desprezo. - Sempre os mesmos bêbados.
- Esperem! - disse Alberto Sá. - Eles podem ser a nossa salvação.
- Como? - perguntaram os irmãos em uníssono.
Alberto não perdeu tempo com mais conversas. Avançou por entre a multidão e puxou um dos ébrios. Em curtas palavras explicou-lhe a situação que separava a sua anteriormente unida família, e, num murmúrio quase inaudível, disse aos seus irmãos que "ele tem fama de ser muito esperto. Talvez nos possa ajudar..."
Após curtos minutos de meditação, a misteriosa figura falou:
- O vosso problema tem solução. - disse calmamente. Os rostos abriram-se numa expressão assombrada. - Mas primeiro têm que me deixar oferecer-vos uma coisa. - tirou o relógio do pulso e estendeu-o à frente deles. - Tomem, é vosso.
Eles bem disseram que não podiam aceitar, mas o seu interlocutor cortou-lhes imediatamente a palavra:
- Não, não, eu insisto. Fiquem com ele, é vosso. Façamos então as contas... Agora têm 18 relógios. Metade é 9, ou seja, são 9 relógios para o senhor, Dr. Moisés. Um terço de 18 é 6, são 6 para você, Dr. Rabot. E, por último, um nono de 18 é 2, ou seja, são 2 relógios para o Dr. Alberto Sá.
Moisés ficou boquiaberto. Cofiou a sua longa barba branca. Nem toda a Semiótica do mundo o tinha preparado para aquilo.
- Mas... - balbuciou Moisés. - Eu fiquei com 9, o Jean com 6 e o Alberto com 2... tudo somado dá 17... Resta um relógio!
- Exactamente. - disse o outro. Envolveu-o à volta do pulso e disse: - É o meu!
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História engraçada, na minha opinião. Fica uma questão por resolver: quem era o misterioso solucionador do problema? Essa pergunta, caro leitor, é um desafio que lhe lanço: quem era ele, afinal?
O mistério será desvendado num próximo Post.