20 abril 2005

Fumo branco

E houve, porventura mais cedo do que alguns esperariam, fumo branco.
O sucessor de João Paulo II acenou ao povo, sorriu e levantou os braços.
Mas não convenceu.
Confesso que, neste assunto em particular, não sou a pessoa mais indicada para me pronunciar - não sou católico, nem sequer cristão, e as minhas ligações com a religião resumem-se a uma presença fugaz em casamentos e baptismos. E mesmo estes têm vindo a escassear.
Mas a sucessão do Papa não é um assunto exclusivamente cristão. A Igreja católica, que hoje em dia guia espiritualmente mais de 1500 milhões de pessoas, é uma força aglutinadora cuja cujo líder influenciará obrigatoriamente todo o mundo. Hoje, para mais neste mundo globalizado, uma alteração nunca é local - ela é sempre (ou quase sempre) mundial. Principalmente quando falamos na Eleição de um Papa.
E terá sido Ratzinger o nome mais feliz?
Nesta questão, considero que a Igreja, como Instituição que é, tem o direito de se reger pelos seus próprios princípios. O que quero dizer com isto é que ela, e apenas ela, deve ser responsável pelas escolhas que faz e posições que defende: aborto, casamentos homossexuais, uso de contraceptivos. E, claro, a escolha do Bispo de Roma. Alguns poderão dizer que numa sociedade em mudança, é dever da Igreja adaptar-se a ela.
Respeito.
Mas não concordo. Pelo menos, não completamente.
Será legítimo, pelo Comunismo ter morto dezenas de milhões de pessoas, pedir ao Bloco de Esquerda que se desvie da sua ideologia? Obviamente que não.
Será legítimo, por estarmos numa altura "pós-romântica" do futebol (em que o resultado é mais valorizado que nunca), pedir a treinadores como Rijkard que abandonem a sua concepção de jogo? Claro que não.
A Igreja, desde que não ultrapasse os seus domínios, terá sempre legitimidade para defender os valores que achar mais correctos de acordo com a doutrina que professa. E o mesmo vale para o seu Papa.
Mas, mesmo deixados de parte estes aspectos, seria ele o Papa que a Igreja precisava?
Dizem que é uma das grandes mentes da Igreja.
Dizem que tem um percurso brilhante.
Dizem que em termos intelectuais não deve nada a qualquer outro cardeal.
A Igreja é uma Instituição singular. Não movimenta forças com base na racionalidade. Não une milhões à volta de uma tese de Teologia nem entusiasma pessoas com uma dissertação sobre o papel da Igreja no novo mundo.
A Igreja cresce pela emoção.
E João Paulo II foi o espelho dessa faceta mais emotiva da Religião. Raras vezes o ouvimos falar sobre a evangelização de novos povos. Nunca ele foi elogiado pela forma astuta como mantinha contactos com importantes líderes mundiais de forma a gerir os seus interesses (sim, apesar do laicismo a Igreja tem influência política) da melhor forma.
O que vimos foi milhões a chorar quando ele morreu. Foi pessoas a lembrar o sorriso, os gestos e o afecto que ele sempre dispensou. Foi a mensagem de paz que ele deixou.
A isto, Ratzinger dificilmente poderá almejar.
Ele não é o sucessor de João Paulo II.
Poderá com ele partilhar os pontos de vista sobre muitas questões, poderá ter sido ele (como já ouvi dizer) a redigir muitos dos seus escritos, e assim tornar-se um alvo fácil das organizações renovadoras, mas isso é algo que nunca poderá contrabalançar com o sorriso e o afecto do falecido Papa polaco.
Mas não terá o benefício da dúvida?

Comentários

3 Comments:

At quarta-feira, abril 20, 2005 12:19:00 da tarde, Blogger Phillipe Vieira said...

O papado de João Paulo II foi longo e positivo, daí que a Igreja decidiu que o seguinte deveria ser na mesma linha. Ratzinger é um teórico competente e um teólogo eficaz.
Tens também razão quanto à posição da Igreja na sociedade. Não se deve colocar em causa a legitimidade da Igreja em se exprimir livremente e dentro dos seus domínios. A igreja tem um história a defender e acima de tudo tem um passado de respeito e não pode em qualquer altura comprometer os ideais apregoados pelos grandes nomes do passado (terei que referir alguém além de Cristo?!), sendo por isso ilegítimo e incorrecto pedir-se que esta reformule completamente os valores sobre os quais está assente. A igreja terá que se remodelar e reaproximar da sociedade, mas sem esquecer o seu passado.

 
At quinta-feira, abril 21, 2005 12:29:00 da manhã, Blogger Sílvia said...

Pedro, não vou comentar os teus postes de forma subjectiva porque isso significaria que teria que ler o que escreves..E isso é muito cansativo.Em contrapartida posso sempre desejar-te as boas vindas à blogosfera.E Prometo passar cá de vez em quando. Bjinhux.

 
At terça-feira, abril 26, 2005 5:01:00 da tarde, Blogger ovelha_negra said...

João Paulo II veio trazer uma pequena brisa de proximidade entre a Igreja e o presente. Apesar de algumas lacunas (como a crescente descriminação do papel da mulher dentro da Igreja católica..)cumpriu o seu dever e findou o seu papado com balanço positivo. A eleição de Ratzinger é polémica, pelo menos para os que assistem de fora aos acontecimentos. O facto é que Ratzinger não inspira muita confiança para todos os que dele apenas sabem que incorporou a juventude nazi e pouco mais. Mas, se foi eleito não foi por acaso.
Tal como tu, Pedro, não sou católica, nem cristã, e só vou à igreja em casamentos e batismos ( e mesmo assim, quando posso evito-os). Por isso, não me afecta directamente pela religiosidade. O que espero da Igreja é que saiba actualizar-se porque o seu grande problema é uma certa ostracização. A igreja não tem sabido acompanhar os tempos. Ainda existem muitas marcas da idade média nos comportamentos católicos de hoje em dia. Falo por exemplo da guarda suiça, que até hoje mantem a mesma farda.
O meu desejo é que o proximo Papa seja negro. desta forma vamos poder confirmar (ou não) a profecia de Nostredamus.

Ana Paula Fonseca

 

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